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  • Ursula Rösele

A vida é tão sutil... com suas pequenas mortes e sopros


(Da esquerda para a direita: Eu, Thi, Jana, um moço que não lembro o nome e Henri)

Semaninha bizarra essa minha. E certamente a de outras pessoas também. É sempre assim, né?


Em outubro de 2018, eu imersa em um processo muito louco, um incêndio tomou o meu prédio. Eu havia chegado d´A Obra, ainda bem que não tanto alcoolizada, e sentado no sofá. Ouvia música, imersa nem sei em quais pensamentos. Ouvi um grito, um pedido de socorro.


Sabe aquela época em que tudo parece ruir? Lembro de ter levantado do sofá pensando “o que é agora, meu Deus?”. Abri a porta e vi minhas vizinhas de porta: uma senhora bem idosa, sua filha, uma garota de camisola gritando de joelhos no chão e um garoto, de uns 7 anos, entrando e saindo do apartamento e berrando “tem fogo em tudo!”. Sem raciocinar peguei o andador da minha vizinha e a ajudei a descer. Voltei, peguei sua filha (ela parece ter algum problema, não sei qual). Voltei, peguei a jovem de camisola e o garoto. Voltei, peguei meu notebook (ah, o capital e nossos acervos pós-modernos), meu celular, tranquei meu apartamento e saí. Graças a tudo o que existe, meu filho estava com o pai nesse dia.


O apartamento delas estava em chamas. Muitas chamas. Vidros estalando, tudo quebrando, um barulho insano e cores psicodélicas.


Liguei para os Bombeiros, mas disseram já estar a caminho.


Lá de fora olhei em volta, perguntei se estavam todos os moradores lá. Uma moça apareceu na janela do terceiro andar. Disse que estava presa, não via nada, apenas fumaça.


Recorri a um saber absolutamente inútil, mas que nesse dia se provou o contrário. Evoquei um episódio de “Grey´s Anatomy” em que acontece um incêndio e falei pra moça molhar um cobertor e descer enrolada nele. Falei sem pensar no possível caráter ficcional da informação. Um tempo depois ela desceu, dizendo que tinha sido perfeito, a fumaça se afastava à medida que ela passava.


Chegamos à conclusão de que estávamos todos lá.


O Corpo de Bombeiros chegou, dois caminhões imensos, carregando suas mangueiras prédio adentro e eu sentei, na beirada da calçada. Todos seguros, a senhora e seus netos haviam sido conduzidos ao prédio ao lado, onde um filho dela morava. Eu comecei a chorar, copiosa e solitariamente, ninguém me acudiu ali. Poucas vezes na vida me senti tão sozinha.


Não liguei pra ninguém, eram 3 horas da madrugada e na hora não me ocorreu muita gente pra ligar, acho que não queria incomodar.


Os bombeiros levaram umas duas horas para conter o fogo. Destruiu todo o apartamento daquela senhora e eu não conseguia pensar em outra coisa que não uma casa de vó queimada, com suas memórias e cheiros e marcas do tempo.


Ao final, alguns bombeiros pediram nossas chaves para verificar se nossos apartamentos estavam seguros.


Quando nos liberaram as luzes da manhã começavam a aparecer. Entrei na minha casa e parecia cena de guerra, o chão meio molhado e repleto de marcas das botas dos bombeiros. Um cheiro que não há rebuscamento de linguagem que dê conta de descrever.

Peguei uma mochila, pus um pijama, calcinha, uma roupa para o dia seguinte e fui para um hotel. Lá que liguei para algumas pessoas. Um casal transava vigorosa e sonoramente ao lado. A vida e suas peculiares nuances...


Antes de sair, perguntei à família do apartamento da frente se queriam entrar, uma água, comer alguma coisa. Seu apartamento estava totalmente destruído e até eu ver um apartamento queimado eu não imaginava essa cena em sua amplitude. A filha da senhorinha estava passada, na porta. Eu disse a ela “nossa, sinto muito”. Ela respondeu: “Ah, tá bom”, e sorriu. Nunca esqueci aquilo.


Tenho um pequeno quadro de Nossa Senhora pendurado na porta do meu apartamento. Comprei quando mudei, num dia muito triste pra mim. A fumaça queimara tudo... as escadas, o teto, tudo preto. Antônio passou meses entrando ali no meu colo, de olhos fechados. Na minha porta a fumaça fez curva. A imagem de Nossa Senhora ficou intacta. Nela está escrita a palavra “Proteção”.


O nome da senhorinha era Dona Phina. Ou Josephina Pilotto Dias dos Santos.


A vi, inúmeras vezes, indo e vindo de pronto-atendimentos. Um dia, há poucas semanas, ela saía com a cuidadora para tomar sol no momento em que eu abri a minha porta. Conversamos, muito. Ela brincou com o Antônio, sorriu, fez várias perguntas. Outro dia, não me lembro mais há quantos deles, ela voltou com a cuidadora de um desses arroubos de pronto-atendimento. A ajudei a subir, sentei no sofá, fiz um carinho e perguntei se ela precisava de algo, se estava com fome, como eu poderia ajudar. Sempre pensei em levar um bolo, oferecer companhia. E não o fiz.


Há dois dias atrás ela fez a passagem. Fiquei sabendo por uma mensagem no whatsapp do prédio, informando local e horário do velório e enterro.


Nesse dia eu saí meio atordoada, com aquele peso típico da morte: ela carrega os tempos verbais e vai levando com ela uma série de coisas que estavam ali e a gente não reparava.

Levei e busquei a minha mãe na hemodiálise, meu filho na escola, e no intervalo eu iria lá no velório despedir dela, dar um abraço nos poucos rostos que reconheceria ali. Mas fiquei presa numa importante reunião da escola do Antônio e não deu tempo de ir. Deixei uma mensagem carinhosa no whatsapp, mas deve ter chegado fria, como geralmente os textos não lidos em voz alta, no tom de quem os escreveu, soam.


Vim para casa, tomei banho e fui para um evento em meu trabalho. Lá, durante obtusa apresentação e certo desconforto por não saber o que me reserva o futuro, recebi uma mensagem de um amigo. Henrique Codato, um querido amigo de anos atrás, havia feito a passagem.


Que dia essa terça-feira.


A morte é essa eterna incógnita, mas quando ela vem na ilusão de um tempo vivido, nos parece parte de um plano natural do qual nenhum de nós escapará. Mas aquele moço do riso, com quem dividi tanta coisa, da minha idade? Não... um bug, algo se desconfigurou no sistema.


Eu nunca havia perdido um amigo.


Fiquei ali, completamente passada, entre as elucubrações vindouras da empresa com ações na Bolsa, e mensagens trocadas com outras pessoas que temos em comum: “você ficou sabendo?”, “meu Deus, o que aconteceu?”, e conjecturas e toda uma memória que vem e te atravessa. Lágrimas, silêncio, eu tentando entender o que a palestrante falava, e uma sensação muito concreta de que o tempo é da relatividade, a morte da ênfase. Com ela muito se esvai, escorre, carrega.


Fiquei sentada tempo suficiente naquele evento para a minha cabeça flutuar em mil direções. Há quantos anos não nos víamos. A tolice absoluta que nos afastou. Por que não o procurei? Por que ele não me procurou? Como era mesmo a sua voz?


Joguei seu nome no Google, mostrei para outro amigo, sentado ao meu lado. Seus óculos de aros pretos, o mesmo olhar maroto que me dispensou tantas vezes, um sorriso de canto de boca que, aos nossos olhos se encontrarem, certamente virava risada nos lugares mais impróprios.


Me dei conta de que diante daquela tristeza bizarra, aquela dor quase física, pensar nele me fazia sorrir. Percebi que havia falado dele para o Antônio há poucos dias. Certa vez falávamos de nomes estranhos. Fomos rindo, uns bestas, outros que a imprensa mesmo divulga (1, 2,3 de Oliveira 4 e coisas do tipo). Henri olha pra mim (não lembro quem mais estava junto) e diz: “olha, tem a tia de uma amiga minha. Você vai achar que estou inventando, mas é verdade. Ela chama Sandália da Silva”.


A morte é tão bizarra que lembrei de tia Sandália (como ele falava) e ri-chorei.


Naquele dia lembro que também vieram lágrimas, de tantas gargalhadas que demos juntos. E ele repetia “tadinha da tia Sandália, ela é tão legal”. E eu ria mais e mais. E ele também.


Ou de uma disciplina que demos juntos na UFMG, durante meu mestrado e seu doutorado – quando nos conhecemos e grudamos feito cola. Um dia resolvemos exibir um filme para os alunos e, durante a exibição, um de nós falou uma bobagem e tivemos uma crise patética de riso. Subvertendo os padrões clássicos, os professores atrapalhando a aula.


Henri era isso.


Riso.


O jeito que ele segurava os óculos ao rir.


O jeitinho afrancesado de iniciar as sentenças “ãhn”.


Teve aquela vez do ônibus, nosso fiel escudeiro 5102.


Eu estava com dor nas costas (essa ainda me acompanha) e ele me indicou Salonpas. “Ah, tenho uma pomada aqui ótima, deixa eu te emprestar”. E quando abriu a nécessaire na mochila, caíram caixas e cartelas de remédios pelo ônibus. Fomos catando e rindo e eu chamando ele de hipocondríaco e ele se divertindo e a gente rindo.


De noite, passei uma camada avantajada de pomada nas costas e urrei de dor. Liguei pra ele “filho da puta, isso é um maçarico, socorro!”. Ele riiiia do outro lado e falava “mas funcionou, não funcionou?”.


Risos.


Henri, eu ali naquela noite, numa convenção ridícula, na hipótese de um futuro profissional incerto e você inerte e eu lembrando de você e risos.


Risos.


Seu apartamento, a Jana, que eu vi outro dia na Fraternidade. Seus cabelos negros, a barba rente, a voz linda e os risos.


Sua veemência nos afastou e eu, tola, te deixei ir.


Perdi 9 anos de seus últimos 9.


Ficávamos nos mandando beijos à distância, por intermédio da Julica.


Queria ter visto os pores-do-sol com vocês e tomado os sorvetes todos.


Então... penso em como a vida é sutil.


Fina camada, quase transparente, levemente transponível.


Basta um segundo e outro no tempo. Ora aqui, ora não.


Nem bem recebi a notícia e estamos aqui, dizendo “ele era”. Que audácia a nossa arrefecer diante de tão instável convenção linguística.


Tá, é um detalhe, será? Você esteve logo ali, por esses 9 anos. Hoje recebi um acalento de saber que foi feliz, realizado, apaixonado, numa cidade cujo sotaque eu amo e imagino que você também. Ama-va.


Não se vá, querido amigo. Fica aí, toma uma, bora dar uma volta no 5102.


Aqueles drinques malucos que fizemos em meu quitinete na Rua da Bahia. E tantas outras lembranças que nesse momento me escapam.


Você passou aqui por coisas mil. Uma delas foi agregar. Já combinamos um encontro, em nome dos velhos tempos, pra gente te beber e chorar e rir e lembrar. Abraçarmo-nos e enviarmos a você, nesse cantinho ao lado onde agora você habita, para que receba nosso carinho e gratidão.


A gente fica piegas, né? E volúvel. Meio careta. Tipo Natal quando amamos todos temporariamente. Ou Carnaval, quando as barreiras se rompem. Festa de Iemanjá, quando qualquer um coloca um barquinho para enchê-la de pedidos.


Eu nunca perdi um amigo.


Mas nessas 48 horas já pensei um tanto de coisas. Sem aquela tolice de prometer uma postura sobre-humana que a pós-modernidade não permite.


Tive a ideia desse texto corrido, como os meus geralmente são. Para dizer de como a vida é sutil e como nos perdemos em suas pequenas mortes, quando deixamos pessoas tão caras a nós seguirem sem a gente. Ou mesmo para dizer daqueles momentos doces em que não sabemos quanto tempo falta para o pretérito, mas nos permitimos amar sem ressalvas.


Espero que Dona Phina tenha feito uma passagem serena como a sutileza de seu sorriso parecia chamar.


E que Henri, nessa passagem meteórica, não fique tão atordoado do lado de lá. Que o amor extremo que ele aqui construiu, serene sua nova jornada e, principalmente, vá acalentando aos poucos o coração de sua mãe, a quem tenho enviado tanto, tanto amor.


Que saibamos nos prevenir, como Henri fez, para quando o pretérito chegar. No amor, no riso, na brisa da vida que vem e passa.


Que fique o amor, sempre. Pelo ao menos na maioria de nossas manifestações.


Um sopro de amor a vocês, que vieram, passaram, ficaram, ainda estão:


Lisiane, a primeira amiga de que tenho notícia. Pela Fanta Uva que dividimos, a sua voz e cabelos finos. Pelo nosso reencontro no Reiki, da forma impensável que somente a vida é capaz.


Aninha, pruima, por tudo que trocamos, pelo mundo paralelo, pela nossa capacidade de ir para Joanésia, bastando para isso um olhar.


Maria Helena, minha amiga mais antiga. Pelo mirc, que nos reuniu, lembra? Seu nick era Lua e o meu, Ucha, que fez você me achar. Pela poesia dos patins que um dia dividimos e garantiram que a cada encontro a gente se perca num abraço apertado, como se o tempo não houvesse distanciado nossos dias.


Lud, minha companheira dos primeiros dois carnavais em que aprontei tudo o que for possível ser imaginado. Pelo pai que você me emprestou e despedimos juntas. Por aquela varanda da qual sinto tanta saudade.


Lorena. Pela peteca diária nos intervalos da escola. O axé, os sorrisos, os porres, um tempo que passa, mas quando nos vemos ainda resta um bocado dele ali.


Fê... você me deu meu primeiro sobrinho e permitiu que a primeira papinha dele fosse feita por mim. Hoje penso em como você foi louca e eu pouco ou nada sabia de papinhas. Pelo Pluqui, nossas caminhadas e o pão que foi mais forte que você... lembra?


Vivi... como fico feliz de te ver toda blogueirinha falando de psicanálise. Lembro de como seus olhos brilhavam ao me ensinar História na escola. E pensar que teríamos um Antônio, minha amiga.


Li. Lembro das provas-relâmpago de matemática e da gente quase pulando em você pra saber o resultado. De quando sofreu aquele acidente e rezamos de mãos dadas. Do brigadeiro, da pipoca e Manom.


Amanda. Bon Jovi e o frio cortante do Retiro das Pedras. Nossos risos e planos de emagrecimento e vida saudável. Que saudade de você, moça.


De Uberlândia ganhei uma família: Rapha, Keka, Crisa, Maria, Cássia, Tatão. Vocês estiveram comigo em uma das piores experiências da minha vida. E caminhamos pelas ruas e dançamos e o London, a Poison, o sítio. Que saudade de vocês.


Na rua, em BH, teve a Clá (minha dupla dinâmica), Flavinha, a Clara, o Pedro, a Larissa, a Rachel, Quelzinha e Tetê. Rodrigo, Bernardo, Igor, Laurinha e Mauro. Sabrina e Fabinho. A casa no morro que sonhamos em construir, a árvore que subíamos pra ver a vida passar, a Pretinha correndo atrás dos carros, o vôlei na rua, brincar de adedanha, as primeiras festas com refrigerante e salgadinhos e os primeiros porres e desilusões amorosas.


Veio a faculdade e a Paulinha, Ju, Naninha, Ana, Lu, Zulu, Rafitos, Serjão, Guizão, Mari... o teatro. Karina, Mari Fialho e Leo Vanucci. Askov com Clight de carambola, noites de violão e tatuagens. E São Paulo pra arrematar a saudade e colocar a gente de volta.


O mestrado e lá está Henrique de novo... e Julica, Bia, Pri, Mari Souto.


E a Filmes Polvo e Thi, João, Leo, JP, Gabito, Mari, Nísio, Leo Cunha, Marcelo.


E o Palácio das Artes e Bruno, Xanda, Mariah, Clá, Victor, Rose, Lu...


Os espaços que vamos passando e as pessoas que nos atravessam.


E hoje tenho a felicidade de citar tantas e tantos. Que vez ou outra me socorrem e acolhem. Como a gente ri e chora e xinga e volta.


Seja através da gestação e do Antônio, da UNA, da yoga, da Escola Livre de Cinema, dos encontros fortuitos da vida.


Pri, Jê, Chenoca, Élida, Mariah, Dani, Mari Mól, Juninho, Camila, Leo Amaral, Júlia, Ariane, Sil, meninas do grupo de mães amigas, Aldo, Mateus, Bia, Beatriz, Etiene, Lets, Jojô, Ly, Mari Pina.


A vida tem sido tão doce pra mim que provavelmente deixei de citar muita gente, de tanta que tem.


Mas é isso... quero deixar aqui meu amor a vocês. E gratidão, por terem feito e ainda fazerem parte da minha vida.


Por terem passado na hora que passaram, por terem surgido quando surgiram. Por terem ficado.


Sei lá. A vida tem dessas surpresas desagradáveis e fora de hora. Vem, carrega um de nós e vai deixando o que fizemos disso ficar.


Que fique o amor e o tempo de agora. Que consigamos achar brechas, espaços, para lembrarmos da doçura entre nós.


E que dure... ainda que a gente passe anos sem se ver. Que dure para todos e todas nós, nos hiatos e interseções, nas escaladas e descidas. Nos recomeços.


Que fique o amor, sempre.


Meu beijo mais carinhoso a vocês, meu suspiro mais saudoso a você, Henri. Vá com Deus, meu amigo.

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