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  • Ursula Rösele

Carta aberta às minhas alunas e alunos (de hoje e outrora)

Por onde começo, hein?


Bem... iniciei algumas vezes um texto que chamaria ‘Sala de Aula’. Acho o nome, apesar de óbvio, no ponto, maybe cool, se partirmos do princípio que a obviedade assumida tem algo de ousado.


Fiquei pensando se o que faria sentido era falar da minha relação com a docência, já que este é um site sobre mim e tal.


Já desisti também.


De falar, mostrar quem sou, pensar nas implicações disso. Ou não, o texto começou agora, né. Vai saber.


Porque a sala de aula, não sei se consigo definir, descrever.


Fui aprendendo com o tempo, muitas cabeçadas e aulas com pouquíssima experiência lá no início, a importância de entender a sala de aula como um evento único, porque acontece num tempo específico, numa localidade específica, com um grupo específico, em uma duração específica. Como o teatro, talvez?


Demorei a entender a importância do um no grupo.


Demorei a entender a influência do grupo no um.


Demorei a entender que há grupos que simplesmente não funcionam e desandam a coisa toda.


Afinal, fui doutrinada na linha do número, a ser uma aluna em meio a muitas e muitos, ter professores cuja trajetória eu desconhecia (no máximo, a acadêmica), e que sequer sabiam meu nome, independentemente do tamanho da turma.


Tive professoras e professores memoráveis, ainda assim.


De redação, principalmente. Uma vez ganhei um livro de contos autografado, que uma professora pegou para mim em um lançamento, pois acreditava em meu potencial para a escrita.


Em Uberlândia conheci professores incríveis, que eu adorava. Mais uma vez, de redação. Wagner era o nome de um deles. Claro, eu, uma menina de 18 anos, me apaixonei e a literatura enfeitava o platonismo de nossa relação de forma muito doce.


Na faculdade não foram experiências tão interessantes, mas houve figuras que eu admirava muito. Lembro do Guaracy, à época, com cabelos longos, sempre molhados, e um desencanto no olhar para uma turma que não caminhava junto da aula. Nunca esqueci disso. Às vezes ele falava umas coisas meio pesadas de uma forma sofisticada e a galera sequer entendia que eram críticas. Eu sorria em silêncio.


Lembro do Leovegildo, figura semi-reacionária que fumava dentro da sala e um dia me disse, em resposta a uma reclamação formal que tentei fazer acerca de uma professora com uma postura muito esquisita (ele era coordenador também): “se você disser que eu falei isso, eu digo que é mentira, mas veja bem, ela tem doutorado, é difícil arrumar professor nessa área com doutorado, então a gente tem que engolir”. Ali entendi outras coisas também.


Produzi um grupo de teatro na faculdade, estagiei num programa de reggae na rádio, dentre outras coisas.


Não posso dizer que fui uma aluna exemplar, nunca tive esse perfil. Mas acho que sempre fui gente boa, mesmo na fase em que a timidez batia mais pesado. Jamais tive e-mail ou contato de professores, nunca desrespeitei ou coisa do tipo. Adorava o fundão, mas fazia muito pouca bagunça durante as aulas. Sempre fui muito observadora e daquelas que estuda na véspera e tira nota boa. Como eu oscilava entre o bar em frente à faculdade durante às tardes, o fundão e ser gente boa, a galera mais nerd não sabia muito como lidar comigo. Nos tratávamos bem, mas sem muita intimidade.


Sempre tive uma tendência a defender as minorias e oprimidos, então com frequência eu me desentendia com a ala elite-branca-metida-a-besta das turmas. Na faculdade tinha um grupo de ‘patricinhas’ que se autointitulavam ‘azoito’. Oito garotas que combinavam as cores da gominha de cabelo com o cadarço do sapato e não sei mais o quê. E adoravam hostilizar as pessoas. Meu apelido “carinhoso”, pois em quatro anos elas não se preocuparam em saber meu nome, era “menina do óculos na cabeça” – porque eu curto colocar os óculos escuros na cabeça.


Talvez a semente da docência já me habitava. Lembro um dia, final de semestre, nossa professora de Planejamento implorando para “azoito” prestarem atenção na aula, pois ela precisava terminar o conteúdo. Elas tinham mania de sentar com meio corpo de costas e ficar conversando. Eu não batia muito de frente, porque acho que ali a maturidade já havia chegado para mim. Mas antipatia sobrava.


O curso de publicidade e propaganda já me ajudou em alguns momentos profissionais, mas saí de lá com absoluta ojeriza, sem querer trabalhar na área, já envolvida com o cinema.


Então, quando tento me colocar no lugar de minhas alunas e alunos, faço um esforço de recordar o que se passava em minha cabeça aos vinte anos, durante a faculdade, acima de tudo.


Chamei o texto de carta e até agora não me dirigi a vocês como manda o figurino, não é?


Pois bem.


Alunas e alunos,


Venho pensando no que dizer a vocês, além do que eu já disse, digo e mostro em sala de aula.


Inclusive, venho pensando se realmente há necessidade de dizer algo.


E mesmo se devo me arriscar a jogar palavras nesse complexo lugar da interpretação individual, não é mesmo?


Eu tenho trinta e oito anos (quase trinta e nove), então sei que falo de um lugar um tanto quanto distante, afinal, já venho conseguindo entender que certas coisas são mesmo assim, que a vida às vezes é bem sem graça e que a humanidade deu errado – como já me ouviram dizer tantas vezes.


Passei boa parte de minha graduação sonhando em fazer cinema, mas não havia este curso na minha época.


Então, talvez, quando me irrito com a postura de vocês, tem um pouco de mãe, aquele ser mais velho que sente tristeza por não poder viver o que vocês, que possuem, se negam.


Mas enfim... isso vocês já ouvem demais.


Há muito pouco tempo comecei a perceber o impacto do que dizemos a vocês. Que apesar de tantas vezes parecer que essa coisa meio hierárquica professor(a)-aluno(a) acabou, vocês tendem a nos colocar em um lugar diferenciado, e em certa medida acabamos servindo como exemplo a seguir – ou rejeitar.


Há pouco mais de um ano eu vim aumentando significativamente a minha carga horária, logo, o peso aumentou, a convivência aumentou, passei a ministrar mais de uma disciplina para as mesmas turmas.


Como tenho uma tendência natural a ser carinhosa e brava no mesmo corpo, é comum que muites me procurem com suas questões, inseguranças, medos e carências. Infelizmente, também se tornou comum uma série de reclamações de todas as ordens. Umas que chegam até mim, outras que prefiro desconhecer.


Eu tive uma professora de matemática na escola, que era super polêmica: Janete. Ela tinha mania de olhar pra gente quando a bagunça estava instaurada e dizer “eu garanto a vocês que não vão querer conhecer o meu lado B”. Ou, algo que nunca esqueci: “o pior que vocês podem oferecer a alguém é o desprezo. Fiquem atentos, pois o ódio é o sentimento mais próximo do amor que existe”. Sim, ela era professora de matemática.


Outra coisa que eu demorei muito tempo a perceber: que ser professora não é cumprir um papel pré-estabelecido de disseminar um suposto saber adquirido e exclusivo, para uma parcela inexperiente de pessoas que deveria consumir o que você veio ofertar. Está aí nosso ‘temido’ Paulo Freire para nos dar um banho de sabedoria sobre isso. Leiam, leiam, leiam.


Essa ideia de uma supremacia do saber me apavorava. Já falei de certa forma disso em uma turma minha de “História do cinema”.


Meu professor de “História do cinema”, quando eu deixei a escola na qual estudei cinema pela primeira vez, se tornou meu parceiro de vida por doze anos, então é óbvio que o que eu disser aqui pode soar enviesado.


Lembro com detalhes de muitas de suas aulas. Da paixão com a qual ele falava, da quantidade de informações e, principalmente, de sua capacidade de alternar os saberes – não era exclusivamente uma aula de cinema, mas filosofia, história, política, história da arte. Conversávamos muito sobre a sala de aula e devo a ele muito do que aprendi, absorvi, e também do que optei por afastar do meu processo docente.


Levei muitos anos para entender que eu não precisava ser aquela professora para ser uma boa docente, e que havia potências outras em minha forma de apreender o conteúdo e trocar.


Troca.


Partilha.


Aprendizado mútuo.


Há um bom tempo eu falo disso em sala de aula. Há um bom tempo eu entendi que conseguir trafegar nesse lugar de troca, partilha, sem misturar as bolas é o grande pulo da gata.


Afinal, se há uma especificidade em cada turma, não posso achar que darei a mesma aula para turmas diferentes. Parece óbvio e não fui eu quem pensou isso (está aí uma lista de maravilhosos (as) pedagogos (as) que refletem sobre isso com muito mais propriedade), mas saber lidar com isso é das tarefas mais difíceis de todas.


Se eu sou um universo, como posso achar que, diante de inúmeros universos, conseguiremos seguir na mesma toada, não é?


Há outras questões, que reflito com colegas com frequência: não se ensina cinema num sentido estrito. Podemos ensiná-los (as) a usar os equipamentos, a entender de ritmo e montagem, de enquadramento e captação de áudio, finalização de som e efeitos visuais.


Mas o que vocês farão com isso não está na nossa alçada.


Eu não ministro disciplinas técnicas, então não vou me aventurar a falar muito disso também. Minha aula principal é “Documentário” – a grande paixão da minha vida. Sonhei com esta disciplina desde o dia em que pus o pé na faculdade onde trabalho, mas só fui chamada para ministrá-la uns dois anos depois.


Além dela, tenho sido responsável por “Cinema Contemporâneo” e “Pré-realização” (o pré-TCC do curso de Cinema). Ah! Acho que eu não havia dito que trabalho no curso de Cinema e Audiovisual, não é?


Essa coisa de carta aberta confunde. Para quem estou falando, não é mesmo?


Sigamos, “subamos”, já diria o poeta.


Alunes,


as coisas andam difíceis em nosso país. Ou melhor... as coisas estão difíceis em nosso mundo. Ou melhor, as coisas se tornaram difíceis em nosso tempo. Ou melhor, talvez elas sempre estiveram, ali, nas quinas e sombras e no que estava calado e hoje ganhou voz.


Fico pensando, cada vez com mais frequência, no que estamos fazendo.


Sei que vocês também se perguntam, mas claro, falamos de lugares diferentes.


A sala de aula, apesar de certa condição protocolar imposta pela necessidade de estruturação da dinâmica de ensino, comporta tanto mais, que às vezes ainda me assusta.


Aquele mesmo professor de cinema de que falei acima, sempre me falou do conselho de Nelson Rodrigues aos jovens: “Se o homem, de uma maneira geral, tem vocação para a escravidão, o jovem tem uma vocação ainda maior. O jovem, justamente por ser mais agressivo e ter uma potencialidade mais generosa, é muito suscetível ao totalitarismo. A vocação do jovem para o totalitarismo, para a intolerância é enorme. Eu recomendo aos jovens: envelheçam depressa, deixem de ser jovens o mais depressa possível, isto é um azar, uma infelicidade”.


Concordo bastante com ele. Mas ao mesmo tempo, o que seremos está intrinsecamente ligado ao que fomos e somos hoje. Não digo no sentido punitivo de carregarmos as chagas de nossos erros, mas - e isso a gente vai aprendendo -, de tornar a idiossincrasia, ou mesmo a babaquice, um caminho para o crescimento. E para isso é preciso que abracem a juventude de vocês.


Entendendo se tratar de um fragmento de um tempo maior. Com todas as agruras de não conhecer o amanhã ou mesmo os próximos cinco minutos. E sei como isso dói.


Tenho falado aqui no site com frequência que sou ‘macumbeira’. Agora não é hora de mergulhar nisso e o termo é usado por mim mais por gostar de seu desbunde que para insinuar algo nebuloso na minha ligação com a espiritualidade.


Venho aprendendo em minha vida, a duras e leves penas, que há o que achamos que somos e o que fazemos com isso agora. Que o buraco é muito mais embaixo, que é difícil pra c. ser em um mundo ávido por nos moldar à medida da grandeza, insegurança e vazio uns dos outros. Eu optei por um caminho de crença e de entender que esse aqui e agora, com toda sua intensidade, é um espaço de constante transição e oportunidade de aprimoramento.


Então tenho acolhido meus lados A e B, cada vez com um pouquinho mais de gentileza.


Querides,


muitos de vocês sabem que há ali, diante do quadro em branco, uma mulher que olha para vocês não apenas com um carinho meio piegas, que pode, inclusive, guardar as inseguranças todas, mas alguém realmente interessada em ouvir e partilhar o que já construí em minhas andanças no cinema e na vida. Porque o que fazemos ali, eu e vocês, também é sobre a vida.


Outras e outros insistem em me colocar em determinados lugares que, do alto de minha ingenuidade, não consigo muito entender, mas enfim... elaboremos.


Muitas vezes penso “envelheçam, caramba”, porque é duro ver a negação momentânea a algo que, sinto, uma hora vocês irão se arrepender.


O tal do ego é complicado, porque vivemos tão aprisionados nos sentidos e conjecturas todas, que a simplicidade passa muito despercebida.


Já paguei (e pago) caro por oferecer afeto, vocês nem imaginam.


Já sonhei (e sonho) em sair e não mais voltar.


Já senti (e às vezes ainda sinto) uma preguiça imensa de entrar em sala de aula.


Já chorei (e isso tenho aprendido a barrar) muito a caminho de casa.


Me fascina (e amedronta) a dimensão espelhar da sala de aula.


É engraçado, porque espelho a gente olha e acha que vê, mas aquilo ali é reflexo, há distorção e é de uma dimensão fragmentar. Mas que importância damos, não é?


Tenho pensado muito em meu lugar de professora e sei que muitas e muitos colegas também o fazem.


Claro, estamos sendo colocados (as) na posição de párias nesse governo doutrinário à ignorância, intolerância e violência.


Mas enfim, retornemos alguns passos.


O peso da infinitude do olhar de vocês é de uma dimensão imensurável.


Sei – e compreendo – que há professores que optam por olhar sem ver, vão lá, dão o conteúdo e vão embora. Numa tentativa muito verdadeira de se preservarem de uma série de coisas que não vou aventurar a ponderar aqui. Mas que venho entendendo, respeitando e às vezes até invejando, cada dia mais.


Fico pensando nas juventudes todas.


Quando a gente tem vinte anos, a gente quer mais é rir, trepar, beber, dormir. Ou mesmo, perdidos na imensidão das cobranças de sermos alguma coisa, e bem... de ser aquela coisa específica - porque ai de nós ousarmos ser diferentes do padrão, não é?


Não vou dizer que na minha época era mais fácil ou melhor e incorrer nesses clichês da maturidade.


Quando entrei na faculdade, havia acabado de passar pelo maior trauma de minha vida; meu pai, alcoólatra, vivia em outro país, e eu morava de favor com a minha mãe na casa de uma amiga dela.


Minha vida tem sido um desafio que às vezes amo e às vezes odeio, então acho que fui me tornando essa pessoa meio velha de alma, mas que batalha pelo frescor e doçura na maior teimosia que possam imaginar. Posso cair, e acolho os tombos também – é importante; mas eu levanto.


Tenho fama de ingênua, de me expor demais, ser pouco estratégica, “canceriana”, como algumas e alguns adoram me taxar (e reduzir). Olhar de frente impacta mesmo, e nem sei se eu sou corajosa assim, pra falar a verdade.


Passei anos, anos, anos, calando as minhas dores e medos. Preservando aqueles ao meu lado em detrimento de mim. Com medo de ser, de me mostrar. Dirigi um único filme, na tal escola de cinema, e ali, sem saber lhufas como fazer (porque havia acabado de chegar a esse universo), criei um personagem que sonhava em ser invisível.


De querer ser invisível eu entendo muito bem. Mas, por razões que a própria razão desconhece, venho empreendendo batalhas e fazendo escolhas que cada vez mais me colocam diante do front de batalha.


Então, alunas e alunos, eu vejo vocês.


Não com a intensidade que possam imaginar ou querer, porque meus olhos carregam a sutil distância de minha humanidade.


Às vezes tenho vontade pegá-los pelo braço e gritar: “ei, estamos aqui agora. Vamos fazer essa porra ter sentido? ”.


Falo de um lugar de alguém que projeta o futuro de vocês de uma forma que não consigo mais desvencilhar. Porque sim, sou mais velha, já estive aí, vivi umas coisas bem difíceis e sei como o mundo lá fora é duro.


Especialmente no mercado cinematográfico (arte, cultura em geral – também execrada pelo nosso “querido” governo).


Reflito com constância essa dimensão panorâmica das gerações, vocês sabem bem disso.


Os convido a olharem suas mães e pais com empatia e generosidade, compreender a humanidade que também os carrega. A grande maioria fez (e faz) o que podia com o que sabia (e sabe).


Porque sinto que tem faltado isso, sabem?


Somos um universo inteiro, com tudo aquilo que um universo comporta.


Mas temos nos negado a isso, constantemente, em detrimento da obsessão em manipularmos uma imagem mais aprazível do que achamos que o mundo quer ver quando nos olha.


Se era difícil para mim, imagino para vocês, com as inúmeras narrativas virtuais que diluem todo o realismo de nossos corpos, temores e afetos.


Quando alguns de vocês me param no corredor, ou por e-mail, e dizem que estão deprimidos, querem morrer, que estão com problemas... eu sempre agradeço ao universo pela confiança de vocês. Mas sinto um medo extremo de não conseguir ajudá-los.


Porque se há uma coisa que eu vejo, é a dificuldade de vocês em lidar com a imensidão que mora aí dentro. Com o desejo incontrolável, mas também a assustadora apatia que os acomete.


Já foi um movimento do ego... quando seus olhares fugiam dos meus, eu questionava a minha capacidade, a qualidade da minha aula, o que estava fazendo ali. Hoje consigo me tirar da equação com um pouco mais de inteligência.


Mas a fuga... essa é difícil de engolir.


Somos convocados diariamente à passividade, ao consumo, à fantasia da falta. É o que mantém todo um sistema que precisa que tomemos as ritalinas da vida, meus e minhas queridos (as).


Nunca estive em uma sala de exatas, ciências médicas e tal.


Mas para mim é inconcebível que jovens, aspirantes a artistas, sintam que a sala de aula é um empecilho, um ruído, um blá-blá-blá do qual vocês querem distância.


Talvez eu seja como tantos outros, que sonham com uma juventude ativa, reativa, viva, pulsante. Que vocês enfrentem a transição de peito aberto e abracem o que dói e o que goza, transformando isso na arte possível. E que reajam, resistam, porque é o que nos resta.


Talvez eu seja ingênua mesmo. E utópica, e até infantil.


Talvez eu não os compreenda, e acolho isso de coração.


Chegando nesse ponto do texto, sete páginas já (realmente, ninguém vai ler este site - risos), não sei se o que digo faz algum sentido ou mesmo se havia necessidade.


Mas gostaria de dizer que hoje, do singelo lugar que ocupo, com toda a inconstância dos tempos de agora, gostaria de vê-los se levantar. Gostaria que desejassem estar onde estão, se abrir com o que ainda não são, colocar o que veem em cotejo com o que pedimos de vocês.


Professores não podem e jamais serão párias.


Somos humanos, como vocês o são.


É desafiador estar diante do olhar e não olhar de uma série de jovens. Porque se vocês são o agora, eu sou a promessa de um amanhã que se esvai.


Pode ser mais leve, e podemos recuperar a utopia da sala de aula (Paulo Freire, Paulo Freire, Paulo Freire – vai que repetindo três vezes ele aparece).


O dentro e o fora é um desafio, constante. A sala de aula, principalmente no sistema privado, pode ser para muitos (as) de vocês o lugar da obrigação, do serviço pago a ser prestado. Tudo pode, tudo compramos se virmos o mundo através de um espaço estreito.


Mas para que eu consiga seguir de pé ali, diante de vocês, - e isso sou eu, que dou pouquíssima conta do pragmatismo -, preciso acreditar e abraçar a utopia.


Um dia eu sofri por não conseguir ser a professora que eu admirava em meus professores. Achei que era uma farsa, como pode uma professora não saber tudo? Como posso não responder às perguntas todas, sanar todas as questões, saber todos os dados, ter lido todos os livros?


Até que comecei a entender (ainda em processo).


Talvez, para conseguirmos combater o apelo e convocação ao não pensar, precisemos abraçar a ignorância que habita em nós. Admitir o que não sabemos, relembrar da nossa humanidade, fraqueza, carências – e potências, acima de tudo.


Projeção, caros e caríssimas. Imaginário... isso tende a nos sufocar.


Abandonemos as selfies e abracemos o self.


Eu sou e estou, na medida de minhas limitações. Ainda a tentar compreender meu verdadeiro papel como docente. Abrir isso aqui é um risco, como muitos outros que venho correndo. Mas preciso admitir: cansei do pouco, cansei do mais ou menos, cansei do desvio, cansei da máscara, cansei.


Sempre pode piorar, e sabemos bem disso. Mas, já que as máscaras caíram todas, vamos nos encarar de frente?


Deixo aqui um abraço doce e longo a cada um e uma de vocês. Que ainda partilham comigo da sala de aula, que já formaram, que estiveram ali no início, quando eu não fazia ideia de como conduzir. Eu aprendi e aprendo, com todas e todos vocês, gratidão.


E claro, “subamos”.


Vinícius de Morais:


OS ACROBATAS

Rio de Janeiro, 1946


Subamos!

Subamos acima

Subamos além, subamos

Acima do além, subamos!

Com a posse física dos braços

Inelutavelmente galgaremos

O grande mar de estrelas

Através de milênios de luz.


Subamos!

Como dois atletas

O rosto petrificado

No pálido sorriso do esforço

Subamos acima

Com a posse física dos braços

E os músculos desmesurados

Na calma convulsa da ascensão.


Oh, acima

Mais longe que tudo

Além, mais longe que acima do além!

Como dois acrobatas

Subamos, lentíssimos

Lá onde o infinito

De tão infinito

Nem mais nome tem

Subamos!


Tensos

Pela corda luminosa

Que pende invisível

E cujos nós são astros

Queimando nas mãos

Subamos à tona

Do grande mar de estrelas

Onde dorme a noite

Subamos!


Tu e eu, herméticos

As nádegas duras

A carótida nodosa

Na fibra do pescoço

Os pés agudos em ponta.


Como no espasmo.


E quando

Lá, acima

Além, mais longe que acima do além

Adiante do véu de Betelgeuse

Depois do país de Altair

Sobre o cérebro de Deus


Num último impulso

Libertados do espírito

Despojados da carne

Nós nos possuiremos.


E morreremos

Morreremos alto, imensamente

Imensamente alto.

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