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  • Ursula Rösele

Corporar, parir, (re)nascer

Então.


O corpo, um corpo, o meu.


Há um tempo eu venho dizendo que me surpreende como banalizamos o nascer. Pode parecer um tanto ingênua essa afirmação, ou sua derivação, sei lá... mas nós, mulheres, geramos um ser, por inteiro.


Isso foi medicalizado, institucionalizado (como todo o resto, basicamente), posicionado em um lugar de certo pragmatismo.


Mas assim.


Eu era um corpo só, errante, errático. Em processo.


Um dia surgiu Antônio. E ninguém fala isso conosco não... você vai sacar seu bebê de fato quase lá para os 5 meses de gestação. Até lá você parece acima do peso, meio desconjuntada, não sente o bebê mexer e fora os ultrassons, a relação é construída no imaginário (e isso certamente pode ser explorado).


A gente padroniza, né. O não cognoscível é intragável. Eu preciso criar um padrão, alinhar, dar nome a.

Mas o nascimento vem sendo hospitalizado, explicável; nós, mulheres, ocupando com frequência um lugar de servidão, resignação, silêncio. Um explained pronto pra nós, coitadas, que não concatenamos.


Deito ali, um médico abre a minha barriga, meu bebê é exposto num vidro, passou, meu corpo feminino transborda. Ninguém vê, seguimos.


Percebi isso na minha gestação e no que se seguiu.


Eu era inteira novo, errante. Antes disso curtia um programa do GNT chamado “Boas Vindas”, que gourmetizava o nascer e eu chorava, chorava. Ficava ali sonhando com a família que não tinha, ao redor do vidro, esperando um uniforme hospitalar exibir meu filho feito Rei Leão.


Um dia fui parar em um grupo super radical do parto humanizado.


Me senti um pouco hostilizada. Me vi chorando copiosamente de pavor de cesárea.


Mas como controlar o que vem, né. Não sabia, tateava.


Fugi.


Fui para um grupo incrível de ioga e ali comecei a transbordar.


Um dia nossa linda professora, Sat Sundri, disse: agora não é hora de vocês militarem. Vocês estão gerando.


Bum.


Eu vivi essa geração, por inteiro. E cantava no chuveiro para Antônio, todos os dias. Cantava “Silenciosa”, a versão da Mônica Salmaso. Cantava “Painter Song”, da Norah Jones. Sem muito critério para tal. Mas cantei, todos os dias.


Eu acordava de manhã, sentava num saudoso sofá cor de vinho, o sol batendo na janela e perguntava: “cadê o bebê da bagunça?”. E ele mexia, imediatamente.


Foi uma gestação de uma alegria imensa. Um tanto solitária, mas minha, e doce.


Fiz ioga, fisioterapia pélvica, acompanhamento com obstetra humanizado, enfermeira obstétrica, fui em nutricionista, rezava, cantava, alimentava bem.


Descobri a maternidade Sofia Feldman. Fiz cursos de amamentação, primeiros cuidados com o bebê.


Continuei trabalhando, até o trabalho de parto.


Antônio chegou na véspera da qualificação de meu doutorado. Senti dor de madrugada, as contrações começaram e eu estava em bancas de TCC do meu trabalho.


Segurei a onda. Uma colega falou que eram pródomos, que Antônio ainda ficaria no forninho. Duvidei, mas acreditei.


Cheguei em casa, sangue.


Chegou a enfermeira e eu comecei a travar.


Mas vejo hoje, sabe.


Naquela hora eu não saquei meu corpo, minhas limitações, o que se passou ali.


Nem acho que tive uma criação conservadora tradicional que justificasse nada. Mas eu só vejo hoje o que aconteceu ali.


Meu corpo pulsava, ia além de mim, travava, retinha, soltava. Eu também não deixei fluir.


Tinha aquele relógio.


Chegamos à maternidade e tinha um relógio.


5 minutos. Todas as contrações vinham de 5 em 5. E o relógio me encarava, indolente.


A consciência do racional, mas algo transbordava, doía demais, parecia que eu explodia e eu não sei até hoje dar nome a isso.


Não tomar anestesia virou uma obsessão e hoje eu agradeço por tê-la seguido.


Doeu, não se enganem. Uma dor insuportável. E sei lá, não sei se é da dor que eu precisava, mas de entender meu corpo naquela dimensão. Porque eu não havia entendido, até então.


Tanta coisa não entendida.


Foram mais de 23 horas. Meu corpo retraía inteiro, eu não reconhecia nada, achava que raciocinava, mas tudo era hiperbólico numa lógica maior que a que eu experimentei a vida inteira.


Vinha raiva, vinha alegria, mas tem um lado podre que ninguém fala. Parir é bonito num simbolismo que nossa sociedade rebuscou imageticamente para não ter de dar conta do caos e suas consequências. Mas é esteticamente feio.

Minha barriga contorcia, eu tinha receio daquela exposição toda, a minha nudez, o meu corpo indo além de mim, o olhar de quem esperava sair Antônio enquanto eu morria ali, diante de olhares.


Parir é morrer, minha gente.


Fazer nascer é morrer mulher.


E renascer é um peso que vimos carregando, uma vida inteira.


Eu, que mal sabia de mim, morria e nascia e nem via.


Mas o relógio controlava cada devaneio, trazia consciência onde devia haver dispersão, respiro, mantra, centro.

Eu era descompasso, grito, berro, um corpo demonizado que começou a pedir cesárea, anestesia, fuga de mim.


E Antônio mudou a posição e foi um auê.


Eu via os 5 minutos, as horas não.


E aí veio a história toda, difusa, embolada, no grito, na explosão.


A criança que fui, o bebê de cesárea que fui, o pai alemão, a mãe brasileira, ser filha única, achar que o espírito de meu pai apareceria ali e nada.


Tentei entrar na banheira e eu era enorme para ela, posição ruim da porra.


Mudei de posição um milhão de vezes.


Minha doula, mulher maravilhosa, tentou acalentar, dizer que Antônio chegava já, já. Eu xingava.


Minha enfermeira obstétrica, mulher de outro mundo, sugeriu uma posição, eu xinguei.


E hoje vejo a tatuagem cravada na minha pele: “a cura é feminina”.


Começou ali.


Meu parto não foi bonito. Um dia tentei mostrar para umas amigas e elas ficaram entediadas com o vídeo. Durava demais, não tinha curva dramática, música de fundo, montagem amenizadora.


Hoje agradeço por isso. O vídeo do meu parto é a minha cara, meu jeito de pensar a imagem.


Meu parto foi cru.


Foi feio, sabe?


Uma hora lá, depois de meu desarranjo, da deselegância de xingar a todes, Antônio encaixou. E sei lá, pra mim durou um tempão, mas acho que nem tanto... comecei a conseguir empurrar e ele saiu.


E então.


Ele era bochechudo e chorava de um jeito curtinho e era lindo e perfeito e um ser humano, saca? Saiu um ser humano de mim.


Eu não chorei e isso é inédito de um tanto, simbólico de um tanto.


Porque eu choro sempre. O tempo inteiro.


E ele não me evocou lágrima nenhuma, mas Antônio é raiz, é Oxóssi me chamando pra floresta, Iemanjá me insurgindo do mar, é Obaluaê me curando de mim, é Oxalá me trazendo a vida inteira.


Lembro de me olhar no espelho, uns dias depois.


Eu me achei tão, tão linda.


E não, não há um belo discurso de empoderamento daí não. A vida para as mulheres é uma bosta gigantesca. Sempre foi e agora estamos enterrando uma pá de coisa de novo.


Medo descarado de transbordar esse nosso.


Eu queria ser para o Antônio uma mãe que idealizei. E sei lá, a vida não me cabia mais como era. Eu não cabia em mim, algo no tempo e espaço havia se desconfigurado.


Eu ainda vou escrever muitos textos sobre essa coisa de ser mulher.


Caralho.


Buceta, né. Melhor.


Ser mulher é um trampo.


Ser mulher, e mãe, é um trampo.


Ser mulher, e mãe, e divorciada, é um trampo.


Ser mulher, e mãe, e divorciada, e professora, é um trampo.


Eu sei que até hoje não entendi o que aconteceu.


Meu filho me chama e o mundo para. Mas há dias em que tudo que eu quero é ficar sozinha. E outros em que eu o quero de novo em minha barriga. E olho bebês e sinto saudade, e quero amamentar.


Como eu amei amamentar.


Então, é isso.


Eu acho que não deveríamos ter banalizado o nascer.


A gente banalizou nossa própria essência e prioridades. E o corpo que gera e a mulher que morre e que renasce.


A gente sistematizou nosso eu de todas as formas.


E as máscaras, as máscaras.

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