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  • Ursula Rösele

Corporecer (parte 1)

A inadequação de um corpo. No caso, o meu.


Venho olhando em retrospectiva para entender o que ocorre entre meu corpo e eu. Um desarranjo, um desajeito chato.


Não vem de hoje.


Saindo recentemente de uma reunião na escola do meu filho, me dei conta de que me identifico profundamente com ele – em algum momento abordarei isso com maior profundidade.


Tenho 38 anos e pouquíssimos registros em vídeo da minha infância.


Um, em um aniversário do meu avô em um sítio; outro, na formatura de terceiro período na escola.


Vou me ater ao da escola.


Estudei um tempo no Colégio Logosófico e enfim... talvez um dia eu fale disso.


Eu tinha sete anos nesse vídeo. Havia acabado de retornar da Alemanha com meu pai (ele, o alemão) e minha mãe.


Em um dos momentos, estávamos sentados em nossas carteiras, em círculo, e a professora, com uma voz de taquara rachada, passava de um a um solicitando que disséssemos nossos nomes e fizéssemos alguma performance fake para soar bonito no vídeo.


Quando a professora chega em mim, eu tento, com meu braço, ocultar a minha presença.

Abaixo a cabeça, coloco desajeitadamente a mão na boca, na esperança de a falta de carisma induzi-la à próxima criança.


Ela insiste.


Começa a relatar que eu havia acabado de voltar da Alemanha e tinha trazido presentes para todes. E pergunta a eles (as) o que era. Ouve-se vozes de crianças: “lápis e borrachas”.


Ela me faz algumas perguntas boçais, eu sigo na tentativa vã de evaporar.


Em todos os outros momentos do vídeo, quando eu apareço, estou brincando com aquela que foi uma de minhas únicas amigas na infância (e somos até hoje): Maria Helena.


Corríamos sempre na posição oposta dos (as) colegas.


Aparecíamos sempre de soslaio.


Nos idos de meus cinco, seis, sete anos, fui uma pária em minha escola.


Eu e MH fomos chamadas inúmeras vezes à coordenação.


Jamais por alguma atitude típica de uma criança, digamos, peralta, mas sempre porque insistíamos em não socializar.


MH lembra desse período com muito mais riqueza de detalhes do que eu, mas sei que desde aquele tempo eu tendia a nadar contra a maré.


Me recordo de uma colega, Carolina. Ela era alta, tinha longos cabelos loiros escuros, quase sempre presos em um rabo de cavalo alto, que ela balançava feito propaganda de shampoo quando caminhava. Lembro que no vídeo em questão, ela comandava a brincadeira de pular corda.


Essa garota era cismada conosco. Não faço ideia de quem seja a sua família e das razões pelas quais as suas narrativas sempre terminavam por conduzir, MH e eu, à coordenação.


Talvez eu esteja aumentando, não me recordo com tanta clareza de muitos eventos daquela época.


Sei que nessa viagem para a Alemanha eu ganhei um kit de detetive. Lá dentro havia uma lupa, um papel para colocar impressões digitais e não me recordo o que mais.


Eu tinha uma bolsa muito feia, de um plástico grosso, verde e branca. Eu e MH colocamos os itens misteriosos lá dentro e saímos pela escola desbravando os espaços.


Carolina e suas comparsas nos viram, perguntaram o que havia lá dentro.


Dissemos que era segredo.


Coordenação.


Desde pequena, me aproximei de pessoas que não estavam entre as ‘populares’, mais ricas, etc. Sempre me pareceram as melhores.


MH morava nos fundos da casa da avó, com o irmão e a mãe, numa rua chamada Pimenta da Veiga, no bairro Cidade Nova.


Ali eu vivi alguns dos melhores momentos da minha infância.


No quintal tinha uma parreira, e uma rampa nos conduzia à casa de sua avó. Um dia, não me lembro mais se ela ou eu, ganhamos um par de patins.


Apenas um par.


Por um instante esta parecia uma brincadeira fadada à solidão ou para momentos em que não estivéssemos juntas, mas encontramos a solução. Cada uma colocava um pé, nos dávamos as mãos e descíamos juntas aquela rampa.


Aos 10 anos, mais ou menos, sonhávamos em menstruar.


A gente pegava papel higiênico, durex, e fazíamos um ‘absorvente’ para guardar em nossa bolsa. Ainda tenho uma foto tirada em frente à casa dela. Eu, de jeans ‘santropeito’, uma blusinha curta e a tal bolsa a tiracolo. Ela, de short, bolsa e blusa curta, ambas sorrindo e fazendo chifres uma na outra.


Na esquina de sua casa havia uma banca e uma padaria.


Um dia conseguimos alforria para, sozinhas, comprar chicletes e umas figurinhas. É engraçado como na infância um quarteirão vira uma deliciosa expedição rumo à liberdade.


Além de MH, eu tinha (ainda tenho) uma grande amiga. Aninha, prima de primeiro grau, da família da minha mãe.


Ela é um ano mais velha que eu. Na infância estudamos na mesma escola.


Como se sabe, na infância e boa parte da adolescência, a temporalidade é algo particular. Um ano é diferença enorme, logo, Aninha não me procurava muito quando estávamos no território da escola.


Mas vivíamos nosso mundo juntas, na casa dela ou na minha.


Aninha sempre foi expansiva, gostava (ainda gosta) de cantar, criava apresentações para fazermos à família, nas quais ela sempre conduzia o show.


Eu, desconjuntada, cantava como se dublasse qualquer som da música e torcia para ninguém perceber que eu estava ali.


Juntas éramos paquitas, vocalistas do Dominó, Trem da Alegria, Balão Mágico.


Às vezes fazíamos um jornal, como se fosse o da TV. Ana entrava atrás de uma caixa de papelão e apresentava as notícias. Eu era a fiel espectadora.


Gostávamos de brincar de Barbie, nessa época eu tinha umas bonecas que ganhava na Alemanha e elas eram bem mais legais que as do Brasil.


Juntas inventamos mil narrativas, tínhamos nossos rituais.


Fui chamada de tímida diversas vezes ao longo de minha infância. Inúmeras.


Sozinhas, Aninha e eu, tudo corria bem.


Sozinhas, MH e eu, tudo corria bem.


Mas algo no mundo, desde sempre, me conduzia a certo sentimento de inadequação.


Minha vida deu umas voltas muito estranhas, fui e voltei da Alemanha várias vezes, cheguei a morar lá um tempo, mas não deu certo.


Nessa se foram anos, escolas, bairros, amizades.


Na adolescência, lá para os 12, 13 anos, cismei de jogar vôlei.


Conheci Clarissa, minha dupla dinâmica.


Juntas, jogávamos cerca de 4, 5 horas de vôlei por dia na rua onde morávamos.


Nossas vizinhas, já preocupadas com seus hormônios e corpos florescendo, e eu chegando todos os dias com os braços e pernas pretos de tanta fuligem do asfalto.


Um dia fui à casa de dois vizinhos, Rodrigo e Bernardo. Apareci sem avisar e lá estavam praticamente todos os meninos da rua de nossa faixa etária.


Quando me viram, eles correram para esconder um papel e agiram de forma totalmente atabalhoada quando eu perguntei o que era.


Um deles, enfim, pronunciou: “gente, a Ucha é nossa amiga, podemos mostrar”.


Meio desconcertados, eles pegaram o tal papel e lá havia uma espécie de tabela, com os nomes de todas as meninas da rua e um ranking: mais bonita, gostosa, gente fina, “cabeça”, inteligente, etc.


Rachel e Tetê, duas irmãs que moravam no prédio ao lado, ganharam disparado como mais belas, desejáveis e afins.


Eu, ganhei nota 10 em todos os quesitos que se configuravam, àquela época, como a última pessoa que eles iriam querer beijar: gente fina, “cabeça”, inteligente e tal.


Já em tenra idade eu conseguia recorrer à nobreza de não despedaçar.


Fingi não me importar, inventei uma desculpa para ir embora e enfiei debaixo de meu travesseiro e provavelmente chorei madrugada afora.


Naturalmente, fui das últimas a beijar pela primeira vez naquela turma.


Um dia, fizemos uma festinha no salão do prédio da Rachel e Tetê.


Uma amiga da minha mãe havia me dado um vestido preto apertado, de quando ela era jovem.


O vestido era sensualidade pura e naquela época, e com os treinos de vôlei (eu também jogava em uma escolinha), minhas coxas eram bem torneadas. Meus cabelos não mudaram muito... tive uma fase Maria Bethânia, mas um dia uma filha de Deus me deu a dica de cuidar de cabelos cacheados e assim sigo até hoje. Àquela altura já havia abandonado os óculos e usava lentes de contato.


Não me recordo mais se eu estava com intenção de algo mais, mas creio que não haja jovem de 16 anos que não esteja constantemente movida (o) pelos seus hormônios.


Chegou um rapaz na festa, o Lucas. Ele era deveras desconjuntado, meio grandão, ombros caídos.


Em determinado momento, começamos a conversar, fomos parar na garagem do prédio e lá dei meu primeiro beijo.


Ele começou a frequentar a rua, mas a partir do dia seguinte, passou a agir de forma distante. Um belo dia eu soube que ele havia ficado com uma amiga minha, a número um no ranking dos garotos.


Soube, mais tarde, que o irmão mais velho de uma amiga, obcecado em fazer bullying comigo, havia perguntado ao Lucas no dia seguinte da festa se ele havia virado São Jorge.


O rapaz perguntou por que, e ele disse, rindo: “ué, tá pegando dragão”.


O dragão, no caso, era eu.


Vivi um longo período esportista em minha juventude.


Joguei vôlei por muitos anos, mas com 1,70m, naquela época, não havia espaço para mim profissionalmente.


Fiz hidroginástica, caminhada, comecei a malhar numa academia. Também uma média de 5 horas por dia (cabalístico, vai saber). Fazia aeróbica, musculação, bicicleta, alongamento, dança, etc.


Mas por alguma razão, sempre me senti inadequada.


Tinha vergonha do meu corpo, não o expunha muito, mesmo suando em uma sala com todas as mulheres usando top.


Sempre fui dos bastidores.


Sempre fui aquela que chega em silêncio, é apresentada às pessoas, e em determinado momento meu senso de humor me salva.


Nunca gostei de palcos, microfones, holofotes.


Sempre fui da escrita, de ficar fechada no quarto.


Quando entrei na faculdade, vivi um longo período de distúrbio alimentar. Desenvolvi uma bulimia severa, que me afrontou até meus 25, 26 anos de idade.


Estou falando tão rasgadamente dessas coisas, porque hoje, acima do peso que gosto, mãe e professora, vejo como essa ideia de adequar-me ao que quer que seja que o mundo construa como demanda, me tornou uma mulher em constante batalha para enfrentar-me de frente.


Por isso quero escrever-me e acho que virão muitos outros textos com essa temática do corpo.


Observo meu filho, desde bebezinho, numa certa inadequação com o mundo também.


Como se ele tivesse de ser a criança que corre, que grita, que toma à frente em tudo. Mas ele simplesmente não é.


Antônio é silencioso, doce, nunca solta a nossa mão. Chega de fininho, observa tudo, se solta quando percebe que há segurança para ele.


Claro, isso me preocupa, porque, né? O padrão.


Observo meus alunos e alunas em suas tentativas de existir, estar, socializar.


Alguns e algumas, mais bem-sucedidos (as) na tarefa. Outros (as), no cantinho, de moletom, sem se posicionar a não ser que isso seja imposto por nós.


Tento vê-los (as), para além da superfície, da personagem aluno (a) e professora (ainda vou falar sobre a sala de aula e eu).


Estamos medicalizando a diferença.


Ritalina, anti-depressivos, diagnósticos de TDH, síndrome do pânico e por aí vai.


O padrão, o padrão.


Caminhar em uníssono deveria ter outra conotação, não é?


Lembro de um dia, eu, nos meus delírios de querer ser jogadora de vôlei. Frequentava todos os jogos do Fiat Minas (time masculino do Minas Tênis), colecionava uma revista que chamava Voleibol, assistia a todos os jogos das seleções masculina e feminina, sonhava em casar com o Tande, amava a Hilma (jogadora mineira), na época da Ana Moser, Márcia Fu e Marcelo Negrão.


Estavam chegando as olimpíadas da escola e eu me inscrevi para entrar para o time de vôlei.


Eram dois dias de testes: no primeiro, uma galera fazendo exercícios básicos, tais como sacar, receber, dar toques, passes, defender.


Fui a única de 14 anos a ser selecionada. Todas as outras meninas tinham mais de 15.


No dia seguinte, jogaríamos uma partida.


Cheguei, a professora de educação física, com quem eu tinha uma ótima relação, não tinha podido estar e colocou alunos do terceiro ano para avaliarem. Muitos eram amigos das meninas selecionadas.


Haviam sido selecionadas 13 jovens. Formamos dois times de 6, com uma pessoa de fora. Seria feito um rodízio para abrigar a pessoa de fora. Ao final, uma seria eliminada.

Comecei de fora, obviamente.


Não posso dizer que se naquela época existisse a posição de líbero eu poderia ter tido uma chance, ao menos, em um time pequeno... mas enfim, talvez eu possa dizer.


Eu conseguia colocar a bola onde quisesse e defesa era a posição que eu mais amava no mundo.


No entanto, na hora de começar o jogo, uma das meninas errou o saque e eu entraria no lugar dela.


Com a crueldade típica de uma jovem popular, ela me olhou e disse, em voz alta: “eu vou sair pra essa daí entrar?”. Todes riram.


Pronto.


Bastou esse constrangimento público para eu errar absolutamente todas as bolas que vinham nas minhas mãos.


A inadequação, o desconforto, a pouca força para fazer daquilo meu combustível.


Não sei se o que fui se chama criança tímida.


Não sei dizer se tudo começou no signo, na ausência de irmãs e irmãos, nas inconstâncias de minha vida, em algum coeficiente genético.


A grande questão, talvez, é que a maturidade não nos desvia dos vazios impostos pela aparência.


Naquela época, sem aplicativos, selfies e redes sociais, nosso convívio era ao vivo, o olhar estava em distância pouca, as percepções ecoavam sem a grandeza das falsas narrativas virtuais.


Me preocupa ver a batalha por pertença de minhas alunas e alunos.


Me preocupa que meu filho possa ser incompreendido porque ele mais observa que fala, mais silencia, que se impõe. Porque a festa junina é um pesadelo e ele nunca quer dançar.


As nomenclaturas, os rótulos.


Tenho tentado, como uma querida amiga sempre me diz, ser gentil comigo.


Tento frequentemente ser gentil com quem convive comigo.


Mas já passou da hora da reviravolta dos corpos, dos rostos, das curvas, dos gêneros, das falas, dos falos. De peitar, com ou sem seios, o padrão invisível que silencia aquelas e aqueles que ousam caminhar para a margem oposta.


Sigamos, juntas e juntos.

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