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  • Ursula Rösele

Desce

10 de novembro de 2004. Depois de treze anos, meu pai retorna ao Brasil para a minha formatura. Minha avó materna, Adélia, o esperou ansiosa por anos a fio. Estava com 94 anos e bem debilitada de saúde. Entramos na sala enorme da casa de minha tia que a acolheu, e lá estava. Miúda, sentada em uma cadeira de balanço. Quando meu pai se aproximou, ela segurou as suas mãos e disse “você chegou tarde, filho”.


Naquela madrugada, vovó foi ao banheiro e não retornou. Caiu, não se sabe se escorregou ou se o coração falhou. A ambulância tentou reanimá-la e foi fatal. Ela havia passado.


Eu, minha mãe e meu pai fomos os primeiros a chegar ao velório. Santa Casa. Um corredor comprido separava as baias, onde jaziam corpos inertes. Na primeira delas, logo descendo as escadas, estava o nome dela, mas não o caixão. Fui comprar uma coroa de flores e disse aos meus pais: “vou perguntar onde ela está”.


Entrei, na porta ao lado, e várias pessoas trabalhavam atrás de suas mesas, em silêncio. Eu, perdida em uma infinidade de sentidos possíveis, pausei por instantes minha boa memória fotográfica. Uma moça me pediu para sentar, dei bom dia. Perguntei: “chegamos aqui agora e o caixão da minha avó não está lá”. “-Qual é o nome da sua avó?”. “Adélia Moreira de Almeida”. A moça, sem nenhuma alteração facial, gira sua cadeira de escritório e grita um nome que não me recordo: “-Fulano, desce com a Dona Adélia”.


Lembro de ter paralisado, olhado para ela sem entender, e não sei se pelas circunstâncias, a raiva que senti ficou contida na garganta. Comecei a folhear o catálogo com a coroa de flores, ela ficou em silêncio. Olhei para ela, e minha boca falou por mim: “seu trabalho deve ser difícil, não é?”.


A moça, que até então tratara a circunstância de forma mecânica, levantou os olhos, encarou os meus e disse: “Muito. Ainda não nos recuperamos do dia de ontem. Um rapaz de uma comunidade saía do trabalho e foi assaltado. Ao puxarem a sua mochila ele reagiu e tomou um tiro no rosto. Você não tem ideia de como estava isso aqui ontem. A mãe dele estava totalmente desesperada”.


Fiquei um tempo ali. Olhando para as coroas, que pareciam todas iguais. As faixas, com dizeres clichês. Um tempo suspenso. Rebobina.


“Desce com a Dona Adélia”.


A fala possível, a proximidade de corpos inertes, a distância insondável dos corpos vivos, o silêncio perturbador da morte.


Voltei.


Minha avó chegou e fiquei ali, perto dela, o tempo inteiro. Uma tia, casada com o irmão da minha mãe, e conhecida por seu medo de morrer, se aproximou, triste. Tocou a minha avó, soltou de repente e falou, somente para mim: “ela está quente! Acho que ela mexeu! Será que ela está viva?”. “Tá louca, tia? Ela está rígida feito pedra”. Poucos anos depois, tia Vitória morreria dormindo, após um farto almoço de domingo.


É estranho pensar no que podem dizer os corpos que jazem. O que diriam, se pudessem contar o que os trouxe ali, o que cessou sua condição terrena e para onde haviam partido?

Lembrei do corpo negro do dia anterior. O que poderia ele dizer que já não se saiba? De que falaria, a quem recorreria para contar, com detalhes, como foi o segundo que o separou do presente ao pretérito?


Sempre me despertou certa curiosidade antropológica, o limiar vida e morte dos velórios. Aqueles desconhecidos que passam e tentam desvendar os mistérios dos corpos, as histórias de suas passagens. O olhar de idosos, principalmente. Desprovidos das incertezas que corpos mais jovens carregam em relação ao dia D, observam aqueles que foram, e, imagino eu, se projetam ali.


Não há velórios na Alemanha. Quando meu pai morreu, fui até lá e descobri como o ritual de morte deles é diferente do nosso. Criei um velório improvisado, foi bonito e assunto para outro texto. Mas isso sempre me levou a pensar em nossa necessidade de encarar os nossos em sua condição pós-circulação, bochechas rosadas, opiniões sobre a vida.


Qual seria o lugar de fala dos mortos?

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