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  • Ursula Rösele

Elucubrações acerca dos afetos... e o que mais vier à cabeça


Ontem esbocei um texto cujo foco são minhas percepções dos afetos... não sei dizer se contemporâneos, porque temos certa mania nostálgica de olhar o presente com a empáfia do passado. Como se o ontem geralmente contivesse uma luz singular que o posiciona, frequentemente, num lugar de mais sobriedade que o agora. Giorgio Agamben fala disso com linda propriedade em um texto fundamental, chamado “O que é o contemporâneo?”.

Que somente enxerga o contemporâneo aquele (a) que percebe as suas sombras. Longe de mim transformar isso aqui em um texto acadêmico (por achar que não é o caso mesmo), mas essa citação ilustra bem o pensamento dele:


A contemporaneidade, portanto, é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias; mais precisamente, essa é a relação com o tempo que a este adere através de uma dissociação e um anacronismo. Aqueles que coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são contemporâneos porque, exatamente por isto não conseguem vê-la, não podem manter fixo o olhar sobre ela (2010, p.59).


Estou mencionando ser este meu texto um reflexo do meu olhar, porque é o que quero imprimir aqui neste momento. Claro que minha percepção hoje se difere da última vez que iniciei um relacionamento (ainda me assusta pensar nisso, eu tinha 25 anos, hoje 39), então não adianta dizer que ‘era diferente’.


É engraçado... já falei disso aqui antes, em texto sobre o Tinder (se quiser ler, clique aqui). Um texto meio raivoso, que refletia a minha indignação naquele momento com a extrema superficialidade daquele aplicativo (no entanto, uma das pessoas mais interessantes que conheci no ano passado, foi através dele... das incongruências de tudo, não é).


Falo bastante dessas questões no Instagram, ora com sarcasmo, ora senso de humor, ora certa melancolia. E tenho me deparado com a dificuldade de achar o tom desse texto, ou mesmo sua real necessidade.


Não adianta fazer um tratado sobre as relações contemporâneas como se eu ocupasse um lugar privilegiado ou apartado delas. Ou mesmo ‘hiper academizar’, trazendo dados, problematizando os reflexos capitalistas e as redes sociais como notórios agravantes. São, e acho que isso é indiscutível. Tenho sentido um chamado de retorno à academia e explorar nossa relação com as imagens, sua dinâmica perecível e como isso tem nos tornado cada dia mais escravos da ilusão provocada por elas me interessa.


No entanto, de que adianta encher esse espaço de certa erudição, se no final das contas o que mais me indigna e até entristece é perceber como cotidianamente descartamos pessoas interessantes, que certamente poderiam fazer parte de nossa vida (mesmo em outras configurações). Em nome nem sei mais de quê.


Como comento com certa frequência, completei, no último dia 15 de janeiro (2020), dois anos de divorciada. Talvez por essa razão, e pelo que se seguiu a isso, venho mudando cada vez mais minha maneira de observar os afetos, bem como minhas expectativas em relação a um ‘a dois’ salutar, complementar, ‘ao lado’.


Apesar de eu amar a mulher que venho me tornando, digo às minhas amigas e amigos que não indico divórcio nem para meu pior inimigo. É das escolhas mais dolorosas da vida e uma dinâmica de luto única... porque sofrer por aquilo que não retorna, pela dimensão material da partida de um corpo, faz mais sentido existencialmente, sei lá. Mas a dor por um corpo presente, por uma trajetória que não paralisa, apenas não te engloba mais, é certamente a experiência mais desafiadora que vivi.


Sou de humanas, né? As coisas para mim jamais são matemáticas (apenas de eu ter adorado essa disciplina na escola). No início, sempre que eu chorava ou manifestava tristeza, vinham figuras dessa onda, digamos, mais exata e falavam: “mas não foi você quem quis separar?”. Quem me dera a vida fosse simples assim, não é? Decidi (decidimos), segui, fechei a Gestalt. Infelizmente, não sei... não sou dessas.


Hoje sinto extrema felicidade com os caminhos que tomei após essa dura escolha. Doeu um tanto absurdo, mas aceitei o fundo do poço como oportunidade de auto revisão, recomeço, autoconhecimento, evolução e o nome que quiserem dar. Poderia listar aqui a infindável quantidade de recursos holísticos, alopáticos, homeopáticos, antroposóficos, religiosos e psicanalíticos que busquei. Mas não vem ao caso e bem... estão aí citados.


Tento não julgar, mas humana que sou, tendo a preferir a solidão extrema que experimentei, que saltar de imediato em um relacionamento, quebrada como eu estava.


O mais bonito que vivi, e já falei disso também, veio através de mulheres. Amigas, irmãs, até “crushes” (risos). O feminino me inundou de amor nos últimos quatro anos, eu diria. De acolhimento, escuta, delicadeza, paciência, até repreensão. Percebi (e tatuei, inclusive), que “a cura é feminina”. E sou imensamente grata às mulheres, todas elas.


Ontem tentei escrever este texto e caí na minha própria armadilha. Fui me esquivando através do rebuscamento, e quando me dei conta, parei, desliguei o computador.

Há algumas pessoas de meu entorno que me olham (disfarçam, mas não tão bem assim) com certa condescendência. Por vezes me reduzem ao meu signo, por outras me levam pouco a sério, por meus instantes de doçura e afeto se parecerem com fragilidade, ingenuidade, despreparo. Em 2018 perdi a conta de quantas figuras ligadas à espiritualidade me disseram para silenciar, não me abrir, não contar meus planos. Inúmeras vezes me disseram que a dor que me afligia vinha da inveja e de pessoas que me desejavam mal. Sempre achei surreal, tosco, pequeno. Mas de nossa condição mundana, não é?


Também já me disseram que minha energia assusta, que eu amedronto, que... que porre, minha Nossa Senhora. Que porre essa vida de conjecturas, silêncios, escapes, deslizes, conexão fugaz.


Como nos perdemos... zero novidade, eu sei. Não prometi texto lendário sobre nada também, então, se não tiver afim, é só sair do site (espero que não o faça).


Então... estou mais no que vier na cabeça que nas elucubrações, I know.


É isso. Temia um texto recalcado, besta, excessivamente poético até. Porque não se tratam de constatações e certezas, mas inquietudes e uma alma quase Amélie Poulain, que acha que temos perdido um tempo extremo com medo e covardia. E janeiro, férias, né? Na onda da renovação clicheiresca dos reinícios temporais de um novo ano, tendo à fé, à perseverança e à pieguice de ainda acreditar no amor, em todas as suas formas.


Percebo como, no final das contas, se trata de um texto simples, até de poucas linhas (mas infelizmente, concisão não é característica minha).


Ontem iniciei assim:


Tudo e nada


Deseja-se tudo... ou a ideia de. E claro, a dimensão evasiva dos afetos contemporâneos em muito se equipara a todo o resto. Consumo irrefletido, um desejo projetado que quando se concretiza, torna-se nada. Hoje paixão, quase um vislumbre de amor, planos. Amanhã, silêncio. Niente.


As palavras, cada vez mais, dizem menos.


Perdem-se os gestos, na aparente avalanche de possibilidades.


Likes, matches, flertes, os espíritos “livres” que vagueiam descartando todo o resto.


Aprisionamento disfarçado de altruísmo.


Num quase périplo, repetidamente, repete-se, reitera-se... nothing.


Algo como um psicotrópico, que evade, às vezes (bem às vezes) goza, sorri... e passa.


Não mais tudo é passageiro, mas o todo é.



Do esvaziamento do olhar, da superfície como lema


Não quer(emos) ver.


Não quer(emos) ter falta.


O plural que se abriga no parêntesis, demarca a não fixidez(es).


O a dois, never.


Flash, top, zap.


Me torno fragmento na corredeira do(a) outro(a)... pois corre, escorre, voa, vaza.


Solta, ainda que ciente de sua grandeza.


Solta(m)-se pessoas lindas. Talvez justamente pelo fato de serem.


Ser(mos) visto(s)... jamé, Deus me (nos) livre.


....


Então, nessa aí eu tinha desligado o computador.


Me pareceu tolo soltar palavras ao vento, se havia um ponto mais concreto a se atingir.


Ao exercício do sucinto, pois:


Masculinidades


Vejo com meus olhos de mulher, são os que tenho, ainda que ache (minha analista, inclusive) que minha energia masculina é imensa


Nem vou me aventurar a categorizar a masculinidade frágil. Já versaram, com extrema propriedade, sobre ela


Homem(s), em geral, não aceita(m) que lhe(s) aponte(m) suas faltas


Que abra(m) contradição


Não gostam de serem vistos, sem máscara, casca, aquela veste protetora do Patriarcado


Mas vivem ancorados em certo vazio decorrente dessa escolha de encobrirem-se em si mesmos


Mulher boa é aquela que topa o jogo, o teatro, beija a máscara (há exceções, não se ofendam. Mulher é bálsamo, sempre)


Me assusta como os homens se recusam a se mostrarem imperfeitos e aceitarem que nasce amor daí também


Estou quebrado, preciso de um tempo, tenho coisas a resolver em minha vida... ao primeiro sinal de serem vistos... o escape


Como se o lugar do relacionamento fosse a maquiagem de alguém que eu acho que deveria ser e me iludo de que o outro vê somente essa ínfima parte


Ilusão, imagem... sempre a ela


Como aquelas pessoas que malham antes de se matricularem em uma academia de ginástica. Para usarem os tops e regatas e desfilarem diante do espelho, sem precisarem realmente do que o espaço se propõe a ser


E o ego, o ego, o ego... como faz bem para a alma abandoná-lo... e isso não diz respeito a um discurso sexista... vale pra todes



Mulheridades


Conheço uma infinidade de mulheres que não temem olhar pra dentro


Que, Nietzschiana e com galhardia, encaram o abismo, sem medo de serem encaradas por ele


E tenho me debruçado, artisticamente inclusive, a acolher, compreender e refletir as mulheres, nós todas (talvez), que estão ou estiveram presas em relacionamentos que suplantam/suplantavam suas potências


A resignação diante do masculino. Como se uma única saída de amor possível


Fingir orgasmo, falar amém


“Feminista é tudo sapatão”


“Feministas não querem ser mães”


Percam seu tempo acreditando nesse tipo de falácia, camaradas


Ao invés de olharem, de fato, para certos sintomas de adoecimento dessa sociedade perdida na tão insustentável supremacia dos 'machos'



Masculino-feminino, Feminino-masculino


Tendo a achar que a grande maioria dos homens só se sentem seguros em um relacionamento, quando têm garantida a primazia do palco


Mulheres escolhem, ainda na prisão da aparente não escolha, aplaudirem


Outras não


Outras muito dificilmente têm escolha... haja visto os índices de feminicídio


O triste, tenho visto eu, é o medo extremo das pessoas em perceberem relacionamentos como parte e não todo. Como não inteireza e não fragmento. Como riquíssima oportunidade de olhar pra dentro e evoluir... junto, ao lado


Aceitar nosso corpo, carne, impurezas, desejos inconfessos, incongruências, chatices, pequenezas, grandezas, luz, sombra... como uma linda oportunidade de real conexão


Como diria Saint-Exupéry (o queridinho d´O pequeno príncipe), “talvez o amor seja o caminho pelo qual eu te conduza delicadamente de regresso a ti mesmo”



A imagem


No fundo, o retorno à imagem – mania minha, talvez


Não mais o que eu vejo


O que eu acho que vejo


O que eu escolho acreditar


Disforme, ‘photoshopado’


Insta


Eu, no filtro, felicidade fabricada, aquelas frases que Sabino e Meireles e Veríssimo e Moraes nunca escreveram, mas insistem em atribuir a eles (as), pra ver se engrandece, se economiza o silêncio que passou a nos configurar


Um medo besta de ser quem é


Aqui, meu povo, é isso mesmo, provação, descortinarmo-nos, na celulite, nos problemas de visão, no sedentarismo, na sede, na recorrente podridão que tantas vezes nos sustenta


Mas há a arte... e isso sempre me instiga

A arte


Construir o belo, o feio, o podre, o doce, o perverso


A arte é nosso protótipo de viver


Na música que sobe, no movimento de câmera que nos enaltece, nos créditos que escondem o que se segue ao “final feliz”, justamente porque, Deus nos livre, abrir o véu ilusório da ficção


Oxóssi na veia, penso eu. E Iansã. Pé na terra, olhos no céu, pé no chão, cabelos ao vento, mãos nas armas que possuímos e a floresta, o cosmos... enfrentar-nos


Este texto incauto, desarranjado, com a exata feição de minha dificuldade em lidar com esse assunto, finaliza por aqui


Durante, sem corte seco, no fade out de uma vida que continua, com as coisas, geralmente, no exato lugar onde devem estar


p.s: indico, fortemente, os documentários, "O silêncio dos homens" (link aqui) e "The mask you live in" (disponível na Netflix). E, claro, as maravilhosas leituras feministas disponíveis hoje para nós...

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