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  • Ursula Rösele

Quarentena em devaneio - dez deles

#10

Toda vez que penso na quarentena e eu, o meu devaneio, me vem a questão da temporalidade. Desse tempo que se reconfigura, dos espaços que se reconfiguram, de tudo que, meio do avesso, convoca a transformação quase que a fórceps. Da necessidade tão louca que dela não posso mais me esquivar: de me relacionar com tudo num tempo outro, num ritmo outro. Um novo lar. Eu cigana, e sou. Dei um tempo daqui… de pensar nisso, talvez. Os devaneios sou eu, mas nem sempre consigo (d)escrevê-los. Acabo os deixando passar. Tive mil ideias no caminho, que giram em torno de certa bipolaridade desses tempos de confinamento: a nostalgia, as intolerâncias, o amor em sua forma mais pura, a convivência diária com o Antônio, repensar os afetos, sentir saudade quase que o tempo inteiro, um alcoolismo doido, as loucuras acadêmico-reflexivas (a caixa, o quadro, as multitelas, o abandono da performance em nome do cru, do que é, da vida privada posta pra jogo). Venho e vou. Há dias mais leves, outros turbulentos. Há dias serenos, outros tristes. Há dias raivosos, outros de foda-se ligado. Há dias de esperança, outros de desencanto. Há dias em que a oscilação é de horas. Outros, minutos. O que não cabe, não cabe e tem hora que falto explodir. Aprendendo a respirar. Reaprendendo a meditar. Hoje parei no meio de um ataque besta de ira, enquanto tentava afastar mosquinhas na cozinha. De onde vem esse sentimento? Por quê estou tão nervosa? Respira… e parou. Há dias em que eu mando isso à merda. Foda-se o autocontrole. Ainda recordo das semanas anteriores. Cada sentimento que as marcaram. O luto, o desleixo, o desespero, o desencanto, largar mão de tudo. Ufffff… larguei. Work in progress. Há pessoas e sistemas imutáveis. Eu sou giro, gira, posso me guiar. Eu e meus guias, eu e quem vier ao lado. Chega de gente correndo na frente, tamponando, sem lembrar da nossa humanidade… desde o dia zero de quarentena venho cansada disso e tentando me reinventar. Mas fui entendendo, à medida que o tempo foi passando, que preciso desistir da fala alheia e focar no dentro.

As apologias desse momento também dão uma cansada. A gente inventa regra até no caos… pudera o mundo estar assim. Dificuldade em largar o osso, reinventar, aceitar os prejuízos em nome de outras relações… de amor, amizade, trabalho, maternidade, sexualidade… e a lista voa. Tenho ficado mais serena, mas não posso me enganar. O convite ao desarranjo é diário, se deixarmos. Alerta, o tempo inteiro. Não tenho conseguido acompanhar notícias toda hora. É como uma roleta russa (no entanto, bem capitalista) all day long. Se eu quiser pirar, a porta está sempre aberta. Não quero, grata. Tenho feito o que posso, com o que tenho. Exercer a escuta a quem precisa. O colo a quem pede. O silêncio a quem o merece. E às vezes deixando a resposta pra depois também, porque não tenho de dar conta de tudo e todes. Deixei os vácuos no vazio deles próprios. Soltando em 1, 2… Feriado me deixa assim… zen. Porque o silêncio de fora se efetiva. A necessidade de dar retorno se cala. Eu posso escolher. Um cadinho de livre-arbítrio. Num regime privado, posso lê-lo como cárcere, mas não. Vira e mexe vejo moradores de rua na caçamba diante da minha janela. Outro dia eu e um homem trocamos um longo e silencioso olhar. Entre nós, uns 8 passos, uma grade, uma janela e uma vida em curso, versus outra abandonada. Ele nada pediu. Eu não sorri, mas lhe ofereci o meu olhar. Eu te vejo, pensei. Vez ou outra distribuo uns mantimentos… reúno umas coisas aqui, e quando saio de carro, paro diante de algum(a) morador(a) de rua e entrego. É pouco, claro. Sinto que tudo que eu fizer será. Mas não cabe a mim o todo. Ssssss… soltando, aos poucos, no ritmo de gotas que caem na janela. Na chuva que vejo de dentro, protegida, resguardada pelo tal fruto de meu trabalho. Já dispensei muitas lágrimas nessa quarentena. De desespero, medo, saudade, raiva, indignação. Umas diante da beleza, também. Antônio. Sempre Antônio. Estamos no meio do trem bala da revolução e ele é sopro, é verso, é riso, é dança, é doçura, brincadeira, acolhimento, reencontro, alívio. Ontem ele me olhou, olhinhos lindos, vívidos. E disse: “mamãe, quando eu crescer, quero casar com você”.

Tenho pensado muito no cair dos véus. E também na nova (será?) imagem que se formou. As lives. As lives. As vídeo-conferências, uma linha imensa dos stories com live de tudo quanto há. Assisti a umas bem interessantes. Redescobri o prazer de escutar coisas que me fazem bem aos ouvidos. Reflexões, arte, gente que também tem fritado, mas produzindo pensamento de ouro nesse momento. Tenho pensado na oscilação da tecnologia e numa fragilidade também reconfigurada. O áudio que some no meio da aula. Os rostos pixelados. Os quadrados pretos. Eu ‘ok’ da cintura pra cima. Meias e pijamas da cintura pra baixo. Uma representação fiel do eu agora. Há dias em que é difícil demais produzir conhecimento. Disseminá-lo. Há dias em que eu queria o quentinho do meu edredom e só. Sem chão pra varrer, roupa pra passar, e-mails pra responder. E é isso. Hoje, em meio a uma das meditações, a doce voz do interlocutor me disse “abra os olhos e contemple o entorno, lentamente”. Diante de mim, a fumaça de um incenso. Eu a observei dançar calmamente diante de meus olhos e olfato… calmamente. Tenho aprendido a meditar enquanto Antônio conversa alto com as avós. Sua vozinha é mantra também. Mantra de vida viva, real, vida minha. E vamos… lembrando de, vez em quando, fechar os olhos lentamente e sentir a presença de nosso corpo no instante. Para ver se passa, se desiste, aquilo que não faz sentido mais.

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