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  • Ursula Rösele

Quarentena em devaneio – dezenove deles

#19

Pisou no chão e sentiu que algo naquela superfície havia mudado. Era um terreno um tanto arenoso, com algumas pedras. Escombros, a princípio, mas logo notou que o que via diante de si eram resquícios de um outro tempo, com a promessa de um novo construir.

Caminhou.

Tentou decifrar o que via diante de si. Um prédio, um grande terreno, possíveis colunas descobertas pelos anos?

Ouviu murmúrios e os seguiu. Segurava um livro em suas mãos, coberto com um plástico transparente. Percebeu, ainda sem muita clareza, que seguia confiante de seus próximos passos. Como se caminhasse por si.

Tratava-se de um presente.

Naquele ponto, percebia nos escombros um resto de corredor, em meio a uma parede mal-acabada. Andou à frente, até que sentiu puxar-lhe as mãos, tomar-lhe o livro.

Sentada estava uma senhora, aparentemente desconhecida, que pegou o presente como se fosse para si. Abriu, sem pudor nenhum, rasgando o plástico que o tornava intacto.

A moça se revoltou, pegou de volta o que lhe pertencia antes que se violassem as páginas nunca dantes lidas. Disse: “- Não é seu, e isso não se faz”. Tornou a caminhar, como se de repente aquele espaço, apesar das ranhuras do tempo, já a houvesse abrigado.

Um pouco à frente encontrou uma figura notória, e ali percebeu que nutria por ela uma ternura que nem sequer sabia existir. Entregou-lhe o livro, contando, exaltada, da aventura que vivera com a senhora atrevida.

Ele riu alto e a abraçou.

Ela seguiu caminho, ansiosa por dividir os eflúvios daquele abraço.

Foi percebendo, a cada esquina, a cada entrada sem porta, que algo ali a aguardava.

Era seu aniversário.

Muitos esperavam por ela, em certo fulgor ancestral. Homens, mulheres, sua família, pessoas das quais ela sequer recordava mais.

Não, não estavam reunidos em um único lugar.

Aqueles escombros, apesar da rusticidade material, pareciam formar um surreal mosaico de sua história.

Não que carecesse de sentido. Ser rememorado, talvez. Ressignificado.

Transmutado.

A cada rosto reconhecido ela relatava o abraço doce e o livro entregue logo ali atrás.

Chorava.

Sorria.

Uma amiga de infância segurava um álbum de fotos, e através dele colocaram o tempo em dia. Imagens que a reconfortavam, reposicionando-as no agora.

E ela seguiu.

Foi tomando Mojito pelo caminho, dando as mãos, rindo alto.

Gargalhou.

A madrugada foi passando, as pessoas indo embora, sem que delas precisasse despedir.

O que precisavam saber, sabido estava.

Escurecia da noite, da alma não.

O que construiriam ali, a ela não cabia mais.

Sabe?

E ela foi.

Cortejada, amada, querida.

Tão querida ela.

Uma voz doce, fina, pequenina, se aproximou de seu ouvido.

Abriu os olhos, a moça.

E pensou: preciso escrever.

Ursula Rösele | 29/10/20

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