Buscar
  • Ursula Rösele

Quarentena em devaneio - dezessete deles

#17

Pensando na espessura estreita do tempo

Falsete insensato

No resvalar das horas em que nos acostumamos a caber em pequenos espaços

Sem coro

Sem sarau

Sem cerimônia

De tão habituada às saudades

Esqueceu-se de rezar

Apagou as velas

Aceitou o silêncio

E veio um sopro lento, meio brisa, meio canto

Do lado de fora, na esfera proibida do hoje

Respirou

Em plena ousadia pensou nos versos de outrora

Deitou a cabeça e deixou-se ir

Apagando da memória o cheiro de pretérito

Rasgando a roupa

A máscara

O zelo

O gel

Caminhou de pés descalços na relva que imaginou para si

Ali sonhou sonhos divinos

A glória das pequenezas

As reentrâncias de onde se esconde o mínimo

Deixou-se ir

Imaginou um presente sem resquícios

Reencontros com sabor de reset

Mais uma vez

Juntas, juntos, juntes

Sem busca

Sem preparo

Sem prefácio

Centelha

Fechou os olhos

Sentiu os cheiros todos

Os seus e os do mundo

Aceitou o porvir

Sentindo a imensidão do que sequer ousara aventar

Apenas foi

Desnuda

Desviante

Desejo puro

Ursula Rösele (17/10/2020)

5 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Quarentena em devaneio – vinte e dois deles

#22 Um sinal A matéria mesma de um sonho idílico. Película, tinta, todo um painel repleto de flores brancas, rosas e azuis. Passou as mãos ali, seus olhos ainda fechados. Sentiu as pétalas, deixou de

Quarentena em devaneio – vinte e um deles

#21 Os pés dentro d´água A cabeça debaixo dela As mãos ondulam um balé por entre os dedos Molhados Deixa o jorro de vida transpassar seu corpo todo Permitindo sentir, com o escorrer em si, cada curva

Quarentena em devaneio – vinte deles

#20 Antônio vai embora nas quintas às 17:30. O coração aperta. Deixo de pertencer às suas narrativas, mesmo que ele não saia de mim um segundo sequer. Passei raspando, pertinho de ceder. Deitada, olha