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  • Ursula Rösele

Quarentena em devaneio - dezoito deles

#18

“- Não aguento mais ser quadrado. Retângulo, né?” – bradou, como se possível fosse, com a voz em riste.

Sempre fugindo para as beiras, como boa mineira que é. Desistente do restringir performático dos tempos de agora. O pijama da cintura pra baixo, o olhar que revira na tela, pois a configuração para ela é uma, para os outros, outra.

Quer o toque, o cheiro, as mãos - limpas ou não. Que não importe mais.

Quer o que há de mais comezinho, que possa voltar a sê-lo, ainda que rememore quando deixou de ser simples para virar saudade.

Quer o boteco, a embriaguez em conjunto, a sarjeta.

Quer negar a música do videoquê, por timidez, para depois dos goles todos, ceder ao desafino.

Quer caminhar na calçada, sentir até o cheiro decadente da cerveja quente no asfalto.

Quer entrar e sair de qualquer lugar, podendo lá estar, sem medo.

Quer comprar pão, sabe? Francês, de padaria. Sentar ali, sentir os aromas, sem intermédio de panos antivirais.

Quer sentir o vento na fala do outro, rosto no rosto, olhos fronteiriços.

Quer catar coisas do chão.

Quer dividir pipoca e muitas outras coisas, até as impublicáveis.

O querer, poder querê-lo, sem as vicissitudes diárias, sem os dias que vão passando incólumes, como se não notassem os clamores-mil, ditos em silêncio ou aos berros.

‘Como será depois’, tantos perguntam.

Imagina um lugar, muitos ali, amigos, amores, quem for. Passará por cada um e uma, olhando, quase pedindo para cheirar-lhes a fronte. Segurará suas mãos com a calma de quem não mais teme.

Entrelaçarão os dedos, dirão coisas diversas, de versos, a risos, a juras de amor.

Quererá que ali o tempo pare um pouco, e tudo retorne mesmo que fora de suas padronizações – e por favor, que nos escapem.

Carnaval em julho, umas dez festas juninas, dois natais, milhares de jantares, serestas, mesas na calçada.

Por vezes pensa na ilusão de uma vida em que o amor possa imperar. Escolhe ignorar conclusões a esse respeito.

Quer experimentar o sorvete dela e dele. Quer comida na boca, entrar junto na piscina, rir, rir de tudo, com e sem incentivos alienantes.

Quer o delírio de uma vida que de alguma forma sempre esteve ali.

Escapou-nos o todo. E o que restou é um conjunto de coisas até edificantes, como olhar pra dentro, ressignificar espaços, valorizar o que abandonado estava.

Mas quer, deseja, pede, clama.

O copo lagoinha, o sol na beirada da esquina, a boemia.

Dançar, com os olhos abertos, bem abertos, para não mais perder de vista todos que com ela bailam.

Enquanto ecoa a música, a música... e os pés remexem até o dia raiar.

Ursula Rösele (24/10/20)

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