Buscar
  • Ursula Rösele

Quarentena em devaneio - dois deles

#02


Lembro do caminho pra lá, com detalhes. A estrada, liberada, o cheiro do pasto, o carro, um Peugeot vermelho. O prédio do jornal, Augsburger Allgemeine, de onde podíamos ver a temperatura, indicava a proximidade de nossa casa. Passávamos pelo Edeka, aquele supermercado que eu e minha mãe adorávamos...a avenida, uma escola, vira à direita, esquerda, garagem. O barulho dele abrindo o portão branco para guardar o carro, a gente esperando do lado de fora. No frio, íamos dali à porta do prédio soltando fumaça pela boca. Schillstrasse, 91. O apartamento ficava no terceiro andar. Tirávamos os sapatos na porta, às vezes a família turca nos cumprimentava na porta da frente. A textura do tapete, o cheiro do casaco do papai. O apartamento quentinho, pequeno. A máquina de lavar no banheiro, a banheira, o som da descarga. Adentrando o corredor, do lado esquerdo, ficava a cozinha. Lembro da sensação de pisar naqueles tacos estranhamente macios. A geladeira pequena, o fogão de placas de metal, as panelas cuidadosamente empilhadas, a cortina bordada na janela, o relógio cuco. Na frente da cozinha, o meu quarto. Móveis cinza, como eu sonhei, nos idos de meus 12 anos, após abandonar o rosa. O armário grande, a caixa de bonecas, as revistinhas da Turma da Mônica e "Reinações de Narizinho", meu livro de cabeceira na infância. O rádio onde papai ouvia Bayern 1. A janela, de onde ele tirava fotos de todas as estações, e de onde gravou um vídeo do pôr-do-sol que quero transformar em curta. No quarto de meus pais, a enorme cama, o armário com espelhos, o tapete felpudo. Descrevo enquanto minh'alma passeia por lá. Desobedecendo as ordens do espaço-tempo e trazendo no olfato os cheiros todos. Do lado de fora da janela, o termômetro. Papai amava conferir a temperatura ao acordar. A persiana ultra escura que descia por fora da janela, deixando o quarto num breu delicioso de dormir. A sala. Do lado esquerdo da porta, o sofá de dois lugares onde papai gostava de sentar. Uma das pernas com os joelhos pra cima. Eu amava cochilar no sofá de três lugares. Acho que desde esse tempo deixei de dormir bem.

Na última vez que estive ali, recebi uma incumbência com tom de pesadelo: pegar o que dele eu queria trazer, pois se sabia que do hospital ele não sairia mais. Lembro que deitei na sua parte do sofá em posição fetal e chorei até quase adormecer. Trouxe pouca coisa, não tive condições de trazer tudo. Vieram as panelas, o livro de receitas da minha avó e a caixa de jogos que ele fez pra mim. Diante do sofá havia uma mesa de centro, uma tv, seu móvel de plantas, uma cortina branca fina e a varanda. Ali, eu e papai vivíamos nossa rotina estrangeira. Eu, longe do Brasil, nós dois, um pouco estrangeiros um do outro. O que nos unia era um tabuleiro que mostrei ontem para o Antônio e jogamos pela primeira vez. Feito pelo meu pai, em cada detalhe. Ele cortou toda madeira. De um lado, o tabuleiro de damas; do outro, ludo. Fomos, décadas atrás, numa tabacaria no BH shopping, onde ele comprou um dominó super bonito. Comprou dados, pinos coloridos, peças de damas. Cobriu o tabuleiro com feltro, couro.. a caixa de jogos mais bonita da vida. Ele fazia uma tábua de frios, a melhor do mundo, e, no mais tardar, bebia seu vinho francês barato e eu meu chileno seco. Lá ficávamos horas a fio. Eu sempre insistia pra gente jogar, porque ali era o mais perto que já cheguei do aconchego paterno. Ontem Antônio ganhou de lavada. No Ludo e no dominó. Papai amaria tê-lo visto, em cada detalhe de sua meninice. O chamaria de moleque, riria deixando o pequeno ganhar. Ontem, o cheiro da madeira do tabuleiro conectou nós três, no doce recôndito da minha memória, na passagem de bastão. Agora serei eu, meu pai, a fazer a tábua de frios.

0 visualização

Posts recentes

Ver tudo

©2018 by Escrevo, que meu sanar é água. Proudly created with Wix.com