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  • Ursula Rösele

Quarentena em devaneio - doze deles

#12

Um devaneio sexy nessa quarentena agora fria Uma, duas, dança madrugada adentro. Olhos nos olhos, cheiro no cheiro, quero ver o que você faz. Um sorriso no outro, os olhos refletindo muito além do outro olhar. De dentro para mais dentro ainda. Toca um bolero na vitrola cult. Cheiro de incenso no ar, ela embriagada, ele também. O dueto a faz fechar os olhos. As mãos na nuca, os dedos entrelaçados nos cabelos, longos, cacheados, com cheiro de baunilha. Ele a puxa, ela finge não deixar, mas deixa. O tempo passou e as memórias foram se esvaindo no ar. A suspensão do tempo no jardim da alma. Recomeçamos. Reconhecemo-nos. O mundo segue um pouco igual, mas tudo também diferente. Sentam-se, um diante do outro. Os olhos agora sorriem também, fixados, enquanto cantarolam em outro idioma. Um tremor no peito, ela começa a balbuciar palavras da música – ele escuta, atento, quase sem piscar. Ela seduz, ele se deixa seduzir. Os lábios se aproximam como não faziam desde que tudo mudou. Ela pode sentir sua respiração. As mãos dele tocam as suas, os dedos se entrelaçam. Os lábios roçam um no outro. Ele levanta e a leva, mais uma vez, a dançar. Ela toma um vinho e ele beija seus lábios de uva. Dançam dentro e fora do ritmo, não importa mais. A deliciosa suspensão intencional do tempo. Relativo ele. Ela pende sua cabeça para trás, respira fundo, entendendo que a hora do amor chegou. Ele a espera voltar do regozijo, põe-lhe a língua dentro. O beijo dura mais que a abstração até ali. Os corpos, grudados, dançam lentamente a canção, mais rápida que os dois. Quadril no quadril, um movimento circular, e a promessa de uma noite sem fim.

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