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  • Ursula Rösele

Quarentena em devaneio - sete deles

#07

Meu pai não tem saído da minha cabeça nesses tempos de quarentena. Se nostalgia porque sou canceriana, ou sua proximidade, porque sou espiritualista, eu não sei. Agora à noite, depois de um dia de mil direções, diálogos com diferentes amigas(os), tarefas domésticas e profissionais, uma tristeza que me invadiu do nada e um envio transcendental de Reiki, me veio à mente um dos piores dias da minha vida. Meu pai havia recebido o diagnóstico de seu câncer já com metástase há mais ou menos dois meses. Neste ponto eu havia chegado à Alemanha. Inicialmente, ele ficou internado no hospital. Foi uma série de dias merdas, mas um em especial me marcou para a vida. No anterior, a jovem médica responsável pelo caso dele disse à nossa família que não havia mais o que fazer e que ele não poderia mais ficar no hospital. Meus tios não tinham condição de levá-lo pra casa e eu muito menos, pois estava hospedada na casa de um deles e não havia como custear uma enfermeira. Decidiram levá-lo à uma espécie de asilo, pertinho de sua casa. Neste dia eu chorei toda a água do meu corpo. Fui pra casa esgotada e no dia seguinte, já deveríamos ir ao novo endereço. A tal casa ficava, literalmente, ao lado do supermercado em que íamos...uma micro distância, tortura pura. Cheguei lá logo depois dele, que provavelmente, tinha ido dopado na ambulância. Chego eu e meu alemão macarrônico, no quarto que ele dividiu com o Sr. Flash, um senhor que também estava péssimo. Quando eu entrei no quarto, meu pai estava sujo, todo defecado e completamente desorientado. Não sabia onde estava, o quê estava acontecendo, por quê não foi pra casa. Eu precisei, naquela situação, chamar um enfermeiro, que me pediu um zilhão de desculpas por não terem visto meu pai daquele jeito. Disse a meu pai que ia ficar tudo bem e esperei lá fora - zero rebuscamento linguístico para descrever o que foi que senti. Quando acabaram de limpá-lo e eu voltei, precisei dizer a ele que não havia como levá-lo para casa, que lugar era aquele. Ele perguntou por que não estava fazendo quimio, e pediu desculpas ao meu ex-marido por tê-lo visto daquele jeito. Foi um dos dias mais tristes da minha vida.

Neste lugar não era permitido a gente dormir. Tive de deixá-lo lá na noite de Natal, no Reveillón. Vi limparem a traqueostomia do Sr. Flash um milhão de vezes, bem como acompanhar o silêncio sepulcral que meu pai entrou depois daquilo. Lá eu levei um frango de caldinho com arroz que ele adorava, e o vi negar. Na noite de Natal, ouvi pessoas cantando e fui lá fora. Na sala, as enfermeiras cantavam "Noite Feliz" com os pacientes. Papai não quis ir. Nevava lá fora, e uma senhorinha bem idosa era acarinhada por uma enfermeira que, chorando, cantava. Despedi do Sr. Flash todos os dias, ora segurando seus pés, ora suas mãos, cobertas por meias, para que ele não arrancasse os aparelhos. Seus olhos se moviam em minha direção, mas eu nunca soube se ele podia ou não me entender. Nesse dia fatídico em que meu pai chegou ali, eu pensei que não daria conta. Saí de lá tarde da noite, quando disseram que era preciso fecharem as portas. Saí pela porta de vidro e fazia cerca de zero graus. O céu oscilava entre cinza e preto, com distantes estrelas. Lembro que olhei pra cima e com a força que restava em meus pulmões eu gritei: "que bosta!". E chorei, mas ri um pouco, do ridículo da única reação possível diante daquele pesadelo. Lembrei agora há pouco desse dia. Penso, hoje: minha vida tem sido uma jornada que poucos filmes alcançariam. Vi muita coisa triste e umas belas também. Já vi uma missa de um padre negro na Notre Dame, em Paris. Vi e senti meu filho sair de dentro de mim para os meus braços. Vi a última sequência de "Noites de Cabíria" (Fellini) e pensei: quisera eu ter feito este filme. Meus olhos vêm absorvendo o que depois tento (d)escrever. Às vezes bem, outras no atropelo, como isso aqui. Penso, enfim: sair de casa se tornou perigoso. Tocar, beijar, ou mesmo respirar diante de outrém virou arma. Que tempos esses, temos dito. Houve momentos, como aquele dia em minha vida, que pensei não haver dor e miséria maior pra viver. Falem o que quiserem, mas não ouso me resignar diante de uma vida adulta que vem cobrar galhardia, enquanto vêm disfarçando abuso e pouca escuta. A quê e a quem venho respondendo eu não sei bem.

Mas sinto que é tempo de lembrar da doçura que resta, no porvir, em algo além do absoluto vazio da posse e do poder. Venho cabendo em pouquíssimos lugares, com seletas pessoas. Mas hoje, não por acaso, lembrei de meu top 5 de piores momentos da vida. Há experiências que nos transformam para sempre. Há dores que nos educam. E há morreres que nos renascem, de alguma maneira até difícil de descrever. Renasci dali não sei muito como. Isso ocorreu há pouco mais de oito anos. Acho que quando temos a (triste) oportunidade de ver a vida em seu estado mais cru e frágil, certas coisas passam a perder o valor. E agora, que o "mau" é invisível, esse tal hospedeiro cruel que habita nosso corpo, num louco simbolismo que tem me feito querer escrever o tempo inteiro, vejo que estamos todxs nus. Me parece, a cada dia, que onde decidirmos nos agarrar nesse tempo de nudez inaudita, dirá mais sobre nós que qualquer outra coisa.

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