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  • Ursula Rösele

Quarentena em devaneio - treze deles

#13

Escrever. Um chamado constante, como se de minha cabeça flanassem letras, frases, versos, o tempo inteiro. Penso em texto, sou verbal, mas penso que a minha palavra aflita é resultado da ânsia da escrita, em cotejo com uma realidade que me afasta das páginas em branco que tanto amo. Há toda uma outra lógica de vida, que me puxa para o lado cada vez mais contrário do meu coração. Não tão contrário assim, hei de admitir. Mas essa tal pandemia bate. Esse desgoverno bate. As mortes, o discurso de ódio, a criminalidade em praça pública, a solidão, o flerte com a ausência quase absoluta de empatia... bate. No meio disso, um projeto de educação, um caminho docente que eu já nem sei mais se escolhi. Me lembro vagamente de como fui parar em uma sala de aula, há 9 anos atrás. Na escola de cinema que me formou para esse caminho que eu amo, que é a labuta, é o descanso, é a reflexão e o prazer frugal. Respiro cinema e no descanso, cinema é o que eu sempre desejo. Neste início havia a dificuldade de sustentar uma turma, meus desafios pessoais, minhas inseguranças, ver deflagrado meu desconhecimento de tudo que eu queria saber de cor. E o desejo de agradar, sempre. Adoro a sala de aula, as trocas, quando vejo refletido no meu olhar, olhos atentxs, desejosxs de partilhar essa relação profunda com a arte, a impressão do tempo em imagens. No entanto, o imenso desafio geracional, um mundo que elogia a superficialidade, um capitalismo que nos engole e mesmo a galera que se julga diferenciada, politizada, não percebe que oprime, muitas vezes sem ver. Sempre fui uma pessoa visceral, maternal, super empática e defensora da democracia. Me custaram lágrimas e muito estresse até eu entender certo caráter desviante de uma sala de aula em sistema privado de ensino. E creio que não só o sistema privado. Como já ouvi de um colega, nós somos a pedra no caminho do diploma. Eu ainda abraço a utopia, porque a utopia sou eu. Mas vem chegando o esgotamento e de novo a vontade de chorar.

A sistematização da vida nos separa. O individualismo conduz o pensamento e a ação quase sempre em benefício próprio. E os danados vinte anos. A ideia de saber tudo, como disse Felipe Neto no programa Roda Viva. Sabemos do tempo quando ele passa... as sombras do presente são mesmo difíceis de acessar. Mas penso nas conjunturas todas, que vêm nos autorizando à barbárie, ao descaso, à morte, à impunidade. Se exagero? Não é uma comparação, é um pensar em perspectiva, tentando entender o que nos trouxe até aqui. Venho dando aula repetidamente para quadrados pretos. Pouquíssimas adesões ao rosto, e eu, ora dando aula para o meu, ora acessando um pragmatismo que detesto, ligando o tal do foda-se. Talvez eu tenha a arrogância de supor que há uma jeito 'certo' de fruir. E meus referenciais são todos outros. Sempre fui uma criança e uma jovem solitária, meio autodidata. Nunca tive mentores, que me indicassem livros, filmes, um caminho intelectual mais sisudo, constante. Penso que, como já me disse a minha mãe uma série de vezes, houve momentos em minha vida em que eu envelheci 100 anos. Vivi uma vida privilegiada até meus 12 anos, e depois enfrentei rojões inomináveis. Fui mesmo endurecendo, mas sem perder a doçura jamais, porque - sem modéstia mesmo - a doçura sou eu. Fui vivendo, em aula e na terapia, aprofundamentos em mim, tentando entender que professora sou eu. Na minha área não sou muito referência, até porque sou mulher e somente agora tenho entendido a importância de defender o meu legado. Achei, por muito tempo, que eu deveria conquistar a atenção com o afeto. A generosidade, a escuta, o carinho. Daí vieram experiências lindas, figuras que eu amaria reunir em uma sala e ficar meses conversando e vendo filmes. E há aquelxs que por vezes me desafiam. Não faço ideia da razão de sua escolha, posto que não desejam os filmes, não querem a labuta, não leem, não tiram os olhos do celular, não frequentam às aulas. O intervalo, as notas, as faltas... são a força propulsora do discurso. Este não é um desabafo individual, isso não acontece somente comigo. Como eu disse, é sistêmico. Aí vem o pacote do demônio: Bolsonaro e pandemia mundial.

Já me habituei bastante à lógica online e sei que era um caminho necessário. Mas é extremamente desafiador. Os rostos no celular se tornaram sem face e sem voz. Algumas vezes nem retorno no chat. E a gente segue, num balé quase que estritamente solitário, tentando engajar e chamar pra perto figuras doces, super parceiras... e figuras que parecem não ver o ser humano refletido ali. Porque há pandemia em ambos os lados. As idiossincrasias, a dificuldade de dormir, o desejo de enfiar debaixo do cobertor por uma semana. É recíproco. E, claro, há as situações que mais doeram meu coração nesse período dose: aquelxs que não têm acesso às aulas, à internet. As diferenças, sempre deflagradas. Alguns conseguiram empréstimo de computadores e vão se buscando formas de minimizar o tamanho do rombo. Mas esse não compartilhar, efetivamente, do que se passa. Dentro e fora de si. Sei que talvez deliro. Divago. Falo para poucos, porque aqui neste espaço pouquíssimxs me leem. Mas eu sou uma pessoa fragilizada no trato gástrico. O silêncio vira gastrite, esofagite, duodenite. E a escrita me tira do peito o silêncio orquestrado pela necessidade constante da performance. Estudo a performance para tentar torná-la menos vil, desviante, surda. Provavelmente sairá um estudo daí. Texto, claro. Sempre a ele. A performance que caiu por terra. Selfies, ostentação. O que se ostenta hoje em dia é o privilégio do home office, do pijama all day long, do conforto do lar (ainda que constantemente desarrumado). Meu cérebro não descansa, acho que sempre fui assim. Ora alerta pela saúde debilitada de minha mãe, ora alerta pelas agruras do mundo, ora alerta no desejo constante de criar. Quando estranhxs me perguntam com quê eu trabalho e eu respondo "sou professora de cinema", na grande maioria das vezes seu olhar muda, brilha e vem um "nossa, que incrível". Eu sempre me achei uma grande privilegiada por poder 'viver de cinema'. É meu refúgio, é meu aprendizado, é quase todo o meu coração.

Há planos dos quais sempre lembrarei quando os vi pela primeira vez. A última sequência de "Noites de Cabíria", a última frase de "De olhos bem fechados", as sequências inicial e final de "Síndromes e um século", as panorâmicas de "Em busca da vida", a câmera lenta de "Amor à flor da pele", os contra-plongées de "Deus e o diabo na terra do sol", a quebra da quarta parede em "Mônica e o desejo", o cheiro de vinagre das latas de Luís Buñuel na mostra em que trabalhei. Quando trabalhei no Cine Humberto Mauro, eu sempre queria receber as películas e empacotá-las ao final. Às vezes eu até chorava na despedida. Chorei na primeira sessão em 3D que fizemos lá. Quando reformamos a sala e lançamos a retrospectiva integral de Hitchcock com um DCP no Grande Teatro do Palácio das Artes. Chorei quando vi uma mulher indígena, em uma cidade do Maranhão chamada Presa de Porco, ver uma tela de cinema pela primeira vez nos projetos em que eu trabalhei pela Cinear. Lembro da primeira vez que eu vi o Palais des Festivals em Cannes. Ou, saindo do Cine Santa Tereza após assistir a "Jogo de Cena". Me faltava o ar, a compreensão. E ali, na calçada, eu soube que meu mestrado seria sobre este filme. A performance, sempre ela. Cinema para mim é identificação, repulsa, amor, peso, complexidade, desafio, gozo. É meu oxigênio e o ar que falta. Talvez, em meu delírio utópico, eu queria que vissem um pouco com os meus olhos. E enxergassem o que está aí, na distância de seu olhar. Mas eu sou só um grão de areia em seu universo. Um grão no deserto, mas um grão perseverante. Porque o cinema sou eu também. Por inteira.

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