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  • Ursula Rösele

Quarentena em devaneio - um deles

* Desde o início da pandemia de covid, comecei a escrever textos que chamei de devaneios em quarentena e publicá-los exclusivamente em minha conta do Instagram: @meusanareagua

Resolvi trazê-los para cá também...


#01


No silêncio forçado da quarentena, as temporalidades se confundem. Voo lá e cá, exercendo o livre arbítrio que sobrou: pensar, imaginar, esse infinito insólito do eu dentro. Ouvindo sonatas em piano que um amigo me enviou, fui ao terceiro andar daquele prédio na rua Universo. Foi ali que sonhei ser pianista, aos 7, 8 anos. A alma evasiva sempre me fez sonhar profissões ora grandiosas, ora pouco usuais, geralmente de difícil compensação financeira. Pianista, jogadora de vôlei, escritora. As multidões já me assustavam antes da pandemia. Mas ansiava pelos abraços antes dela também. Hoje levei Pimpim à casa do pai. Ainda há transeuntes. Poucos, mas há. Voltando, passei devagar pela Praça da Liberdade e lembrei de "Fim dos Tempos", filme que amo, do Shyamalan. Um único rapaz no coreto. Uma moça com toda a largura da avenida para si. Parei no sinal, um letreiro luminoso de uma banca dizia "saiba como evitar o covid19". Sinal verde, virei à esquerda, ponto de ônibus: "você sabe como se previnir do coronavírus?". Tsai Ming-Liang e sua obsessão pelo fim do abastecimento de água também pairava ali. Um morador de rua, convicto, passa no meio da avenida com uma cadeira de madeira quebrada em suas mãos. Sem máscara (para quê máscara se nem pés para sentar sua cadeira tinha?), descalço, a rua para si. Seu olhar encontra brevemente o meu. Seguimos, marchando em uníssono, rumo ao abismo que nos separa. Sigo, às 13:30, num cenário acinzentado (a natureza, como sempre, entende bem todas as coisas), como se fossem três da manhã. Aperto o botão da garagem e uma lata de tíner está parada na lateral da entrada. Tudo agora me parece suspeito... Lynchiano, talvez. Entro, me fecho, subo, lavo as mãos, as reentrâncias, os vinte segundos. Álcool gel no celular, tiro a roupa e ponho pra lavar. Eu que achei que vivia o fim dos tempos não o imaginei adiante, imediato, tão (não) palpável, tão universal. A rua Universo. Ali pintei meus sonhos e os vi naufragar. Dali a Alemanha e cisões irreversíveis. As marcas. Eu hoje, o apartamento em total silêncio. Um pouco de arrumação, para disfarçar as evidências de uma semana caótica.

Cumbia no Spotify, roupas na máquina, lava frutas, varre, toma uma cerveja. Percebo a pouca alteração de uma solidão que já vem me acompanhando há tempos. O quê fizemos de nós? Saudades de minha bola Mikasa, do vôlei na rua, no Ginástico, em qualquer hora e lugar. Preciso me mover. Saudade de dançar. Saudade. A punição brilhante de nossa (des)humanidade. O isolamento, as relações transpostas para o virtual (o que mudou, na real?). Liberdade, ainda que tardia. No devaneio das temporalidades confusas, viajo aqui e acolá, talvez desejosa de ainda mais silêncio. Tem sido cansativo o teatro da vida criada. Enjaulamo-nos. Na mente, nas instituições, no devaneio do ganha-pão. E lá se vai mais um dia de quarentena...

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