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  • Ursula Rösele

Vermelho

[1: sapo de gelo]


Houve aquela noite, fria, não lembro se nevava

Entrei com os meus pais em um restaurante na Alemanha e tudo ali era alemão demais

Hostil na medida em que eu não conseguia executar a operação mais simples: a linguagem

A Alemanha me metia medo

Entidade repleta de sentidos que, àquela época eu desconhecia em sua amplitude histórica,

o país se apresentava para mim numa opulência de vozes austeras, barbas, bochechas muito rosadas e intenções que os olhares não supriam


Sentamos à mesa, algumas pessoas nos aguardavam (não lembro mais se amigos do trabalho do meu pai – coisa rara de acontecer)

Minha forma de protesto, pela fala que me era imputada na língua, era a comida

Bastava descer do avião e eu negava praticamente tudo

Não queria me esbaldar de outros sabores, deixar que o regozijo do alimento tonteasse meu coração expatriado


Acabava cedendo, para um alimento comum ali e acolá – quisera eu, àquela época, já ter bandeado para as inclinações políticas de hoje e ter um pouco mais de crítica acerca do que aceitava comer: batata frita com ketchup


Naquela noite específica, da qual lembro nada ou pouquíssimo,

uma garçonete surgiu com um pequeno objeto em suas mãos, embalado por um plástico colorido

estendeu para a minha mãe, que abriu e o entregou a mim, vencida


Um picolé colorido em formato de sapo

Picolé dentro, neve lá fora


Meu coração também estava gelado,

Mas os protestos não eram muito ruidosos, nunca fui criança de dar a ver a minha presença

Desejosa de certa invisibilidade, pouco ou quase nada obtinham de mim


Mas naquela noite fria germânica, deixei que me escorressem nos beiços finos, o doce derretido pelo encontro da minha boca com o sistema de calefação

E fiz da pequena clausura um deleite infantil



[2: bolo de chocolate e suco de Johannisbeere]


Sielenbach

Pequeno vilarejo no sul da Alemanha, a cerca de 70km de Munique

Numa rua cujo nome não lembro mais, morava Ursula Rösele, xará de nome e sobrenome, vulgo, minha Oma

Típica alemã, em muitos aspectos, minha avó tinha cheiro de avó, pele de avó, talco de avó, casa de avó, olhar de avó, mãos de avó

Mas eu não falo alemão e ela não falava português


Ali se deu uma relação no mais puro dos clichês consanguíneos: um amor natural, no qual as barreiras da língua eram supridas pelos dois únicos abraços que ela me dava (um, quando eu acabava de chegar do Brasil, outro, quando eu retornava)

Oma era de chegadas e partidas, parecia se acostumar rapidamente com a minha presença e guardar, talvez, seu regaço quentinho para os momentos cruciais de nossos reencontros e despedidas


Eu, em certa teimosia confrontadora, a abraçava nesses intervalos e metia um beijo em sua bochecha, quisera ela ou não

Ela, em certa ‘germanice’ impassível, me olhava com doçura, mas não devolvia o beijo


Sinto saudade de meu apelido em sua voz: Usha, com “sh”, aqui no Brasil apropriado para “ch”

Ela falava como se a autoria fosse sua (somente agora me ocorre que possivelmente fora Usha também)


Seu prédio era de um bege meio feio, mas num formato de casa que parecia com aqueles filmes da Segunda Guerra Mundial

Ela morava no terceiro andar, íamos de escada

Ao lado, no quintal, havia um pomar compartilhado

Dentre outras coisas, uma árvore de Johannisbeere


Todas as vezes que eu ia à Alemanha, ela me aguardava com um bolo de chocolate e nozes, daqueles mais gostosos da vida, porque embebido de memórias e imaginário, com um suco de groselha concentrado, de seu quintal


Sua casa era extemporânea, um pouco como eu

Como se o passado ali tivesse pausado

Nas pequenas coisas, nos objetos, na decoração demodê, nas cores vivas

Nas matrioskas que eu sonhei pra mim e ficaram para um tio quando ela partiu


Seu fogão funcionava a carvão


Ela sempre andava com um vestidinho meio típico e, em sua casa, usava um avental, pois boa parte do tempo que passávamos ali era preenchido por comida


Não me recordo de fazer protestos alimentares em sua casa

Mas penso no vermelho-sangue dos sabores que embebiam meu paladar: o ketchup, o suco de groselha


A última vez que a vi daria um filme


Fomos a uma festa típica alemã, algo como uma versão reduzida da Oktoberfest... Volksfest, ou “festa do povo”

Fora uma viagem intensa

Fui com ela e meus pais a um campo de concentração, vi naquela tarde um homem ser retirado pela polícia de dentro da tenda da festa por esticar o braço como o Führer mandava


Quando estávamos indo para o carro, meus pais andaram na frente, de um jeito que hoje sinto saudades

Oma, minha xará ancestral, caminhava ao meu lado e me olhava com ternura... de avó

Segurou a minha mão e começou a me dizer diversas coisas, como se alguma mágica tivesse trazido no ar a habilidade de nos comunicarmos sem a intervenção de meu pai

Foi daqueles momentos que duram na fronte e ouvidos um tempo hipotético do coração


O sol se punha, era verão

O céu, esboçando um vermelho a mim reconhecível, esculpia seus versos nas nuvens


Eu nunca soube o que ela me disse


Gosto de fantasiar narrativas

De pensar em grandes revelações, nas tardes que eu gostaria de ter passado com ela, nas trocas, carícias e risos que nos faltaram, pois eu falo “você” e ela falava “Du”


Talvez, de algum lugar recôndito, da comunhão insondável de nossas feminices, ela sabia que era a última vez


Nos despedimos ali


E eu só saberia três anos depois, quando, após um exame, sua saúde deteriorou e ela nos deixou, repentinamente, em outubro de 2004


Herdei seu velho livro de receitas, com páginas amarelas e cheiro de mofo

Ainda aguardando o dia em que o abrirei em busca do bolo de chocolate e me permitirei deleitar com o meu filho

Eu, ele, o livro, o bolo, o suco

As memórias do cheiro da Oma

Em uma tarde veranil



[3: biquíni de inverno]


O coração tropical não faz floreios


Certa tarde de inverno, numa Alemanha em plena nevasca, entrei com meus pais em uma loja de departamentos

Casacos, peles, cachecóis

A obviedade, o clichê

Dentro e fora conjugados


Escondido em uma arara, vi um biquíni – vermelho – do Mickey

Sem pestanejar, puxei do cabide e entreguei à minha mãe: “quero”


Ela, rindo de mim, mostrou ao meu pai e ele, em sua doçura alemã típica, se negou


Das vantagens de ser infante

Fui motivo de sorriso na loja, no caixa, não me recordo se meus pais tentavam justificar a minha aparente sandice dizendo que sou brasileira, mas lembro que vi ternura naqueles olhares presos à neve lá de fora


Acabamos levando o biquíni


E eu saí, com meu coração tropical estampado na testa, como se carregasse um troféu

A neve dos pés não me toma o corpo


Setembro, 2019

*escrito na Oficina de escrita Diários e infância, ministrada por Carolina Fenati

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